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Terça-feira, 05/04/2016

FANFIC: Uma alternativa para o Letramento Literário na Educação Básica

Tags: fanfic, leitura, literatura.

 

 

 

 

A leitura literária na educação básica compreende um caminho que perpassa pela construção de novos sentidos do processo de ensino-aprendizagem que viabilizem percursos da formação docente e discente em consonância com os novos tempos, marcados pela presença maciça das mais recentes tecnologias de comunicação e informação. Em tal cenário, uma das questões que se destaca é a que trata do letramento literário. Neste sentido, a partir das concepções originadas no campo da Linguística, o termo letramento se ampliou, favorecendo a reflexão acerca do ensino de literatura.


Hoje se fala em letramento científico, letramento tecnológico, letramento econômico, letramentos múltiplos etc. Em sua gênese, a palavra letramento se constituiu pela tradução para o português do termo literacy, em inglês, que significa “a condição de ser letrado”. Ou seja, refere-se ao domínio de habilidades de leitura e escrita por alguém, em dado contexto de uso das situações sociocomunicativas. De maneira geral, podemos considerar letramento como um fenômeno amplo que exige a interação entre o indivíduo e a sociedade, em situações determinadas de produção de leitura e de escrita.


Ao pensarmos no letramento literário, fundamentamos um conceito de que este pode ser entendido como um fenômeno que é marcado pela presença de uma linguagem específica - a literária -, em que se destacam as marcas de ficcionalidade e de forma discursiva própria, o que já impacta na definição de metodologias de ensino-aprendizagem mais significativas, sobretudo ao considerarmos a presença do ciberespaço no cotidiano da sociedade. Este fato tem requerido caminhos diversificados para o processo de ensino- aprendizagem, favorecidos pelo hibridismo próprio desse espaço e pelo alto nível de interatividade que ele estabelece. Portanto, a imbricação entre educação e tecnologias ratifica a necessidade de revisão das práticas de letramento literário que vivenciamos na escola e fora dela.


Considerando os novos espaços de interação social, mediados pelas tecnologias de comunicação e informação, podemos repensar o ensino de literatura a partir de alguns gêneros, entendendo que as relações humanas são essencialmente mediadas pela linguagem que se manifesta em diferentes esferas (oral, escrita e também digital), de acordo com a necessidade de interação entre os indivíduos.


A proliferação da fanfic (fanfiction) e suas variações (drabbles, fluffy, crossovers) podem ser pensadas como um gênero a ser observado mais de perto pelos estudiosos, sobretudo porque parece resgatar a prática narrativa como um domínio discursivo desejável e manifesto por uma parcela dos jovens na internet. Uma vez que se trata de uma produção escrita de caráter ficcional realizada a partir de uma obra já reconhecida – literária ou fílmica, por exemplo -, a elaboração de uma fanfic apresenta elementos da especificidade da linguagem literária, através da exploração dos elementos dessa ficcionalidade, como a relação entre personagens, espaço e tempo; a duração da história (curta? longa?) e a importância da trama no enredo; a opção pelo estilo (prosa ou poesia); critérios de verossimilhança e etc.

 

A produção da fanfic aponta para uma reflexão importante na questão dos modelos de letramento vigentes: o papel do protagonismo dos seus escritores na elaboração das histórias é fundamental na articulação do modelo ideológico de letramento literário, já que os processos de leitura e escrita, se completam na questão do letramento. Na produção da fanfic, eles são especialmente tratados, pela natureza do processo criativo próprio dela, que se utiliza da intertextualidade e da interdiscursividade de maneira muito peculiar. Ao mesmo tempo, ao recriar novas situações e desfechos pela via da narrativa ficcional, o texto - em maior ou menor grau - manifesta o sentimento humano a respeito da realidade ficcional, auxiliando na compreensão do lugar da literatura e sua relação com o Homem real no mundo contemporâneo e da linguagem como sua expressão máxima.


A literatura surge da necessidade de expressão do Homem ao tentar compreender- se a si mesmo. A partir da especificidade da linguagem que o humaniza e o redimensiona como sujeito histórico, permanentemente “aprendente”, como defende Paulo Freire, ele cria, recria, inventa, transforma. Assim, ao propormos a revisão do modelo de letramento literário autônomo, ainda vigente no ensino de literatura em nossas escolas, substituindo-o pelo modelo de letramento ideológico, favorecemos a adoção de novas práticas de ensino- aprendizagem, que se articulam na realidade das situações vivenciadas pelos alunos e no protagonismo deles.


Pensar tais práticas à luz do pensamento complexo, conforme destaca o pensador francês Morin, permite que professor e aluno estabeleçam nova “tessitura” do saber, recriando outros percursos formativos da construção do conhecimento pelo viés da literatura, entendendo-a como um saber próprio, mas ainda relevante à sociedade contemporânea por oportunizar a problematização de questões atuais e pertinentes à formação ética e estética do indivíduo.


Referências:

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.


LÉVY, Pierre. Cibercultura. Trad. Carlos Irineu. São Paulo: Ed.34, 1999.

MORIN, Edgar; LE MOIGNE, Jean-Louis. A inteligência da complexidade. Trad. Nurimar M. Falci. São Paulo: Petrópolis, 2000b.


Nogueira, Keila L.D.; Santos, Pollyanna P. A educação literária e novas metodologias de ensino. Disponível em >. Acesso em 29mar.2016.

SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. 4. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2010


ZAPPONE, Mirian H. Y. Fanfics – um caso de letramento literário na cibercultura? Disponível em . Acesso em 29mar.2016.
 

 

Mônica de Queiroz Valente da Silva
monicavalentes12@gmail.com

Atualmente é professora docente da Secretaria de Educação do Estado do RJ. Tem experiência na área de Educação a Distância e Letras, com ênfase em Língua Portuguesa. Especialista em Literatura Infantil e Juvenil pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestranda do Programa de Mestrado Profissional em Práticas de Educação Básica do Colégio Pedro II.
 

 

 

 

                            

 

 

 

 


   
           



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