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Sexta-feira, 29/07/2016

Entrevista com Anna Penido - Inspirare

Tags: criatividade, escola, inovação.

 

Uma entrevista para nos fazer pensar. Como podemos ver oportunizar um ambiente criativo em nossas Escolas? O que fazer? Quais são as expectativas para a Base Nacional Curricular Comum?

Leia a entrevista e reflita sobre o assunto.

 

 

Rioeduca - Quais as expectativas para a Base Nacional Comum Curricular (BNCC)?

Anna Penido - A BNCC tem a missão de definir com mais clareza o que cada aluno brasileiro tem o direito de aprender e desenvolver ao longo da sua trajetória escolar. Essas definições vão orientar melhor o trabalho de escolas e educadores, bem como as expectativas de estudantes e familiares. Caso cumpra essa função, a Base vai contribuir de forma significativa para garantir mais qualidade e equidade à educação brasileira. Para tanto, é importante definirmos que ser humano queremos formar e construirmos uma proposta formativa que faça sentido para os próprios estudantes e para o nosso país. Isso significa que as áreas do conhecimento e os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento devem estar articulados em torno de uma formação mais integral e conectada com os desafios da sociedade atual.

 

Rioeduca - Qual o cenário para os próximos 20 anos para a educação pública ?

Anna Penido- Em meio a um cenário de tanta turbulência e incertezas, fica difícil fazer previsões para o futuro. Acredito, no entanto, que não conseguiremos sustentar mais o atual modelo de escola, que já se mostra esgotado e incapaz de atender as necessidades dos alunos e da sociedade. Por isso, aposto fortemente em mudanças consistentes, muitas das quais acontecerão por pressão dos próprios alunos, cujas vozes já se fazem ouvir por meio de ocupações e manifestações. Os brasileiros são criativos e abertos a novas experiências. Temos que trazer esse espírito para dentro das redes de ensino e das escolas, a fim de que elas próprias se reinventem, com base em tendências, experiências e evidências que estão sendo geradas nos quatro cantos do mundo. Afinal, a obsolescência da educação é uma preocupação global. Caso o nosso país tenha o compromisso e a tenacidade necessários, poderemos aproveitar esse momento para dar um salto rumo à construção de uma escola pública de qualidade. Para isso, precisaremos abrir mão de resistências, acomodação e disputas inócuas. O debate é importante, mas precisamos nos unir em torno de objetivos comuns.


Rioeduca- A conectividade é um dos entraves para as escolas públicas ?

Anna Penido- A conectividade é fator absolutamente relevante para acelerar mudanças e progressos, caso esteja vinculada a uma política consistente de uso de tecnologia para promoção de uma educação com mais qualidade, equidade e alinhamento com as demandas do mundo contemporâneo. Metodologias e recursos pedagógicos de base tecnológica têm grande potencial de ampliar o engajamento e a aprendizagem dos estudantes, bem como de expandir a capacidade e facilitar o trabalho de gestores educacionais e educadores. Caso as escolas públicas continuem tendo acesso limitado à internet, corremos o risco de ampliar ainda mais os níveis de desigualdade na educação brasileira.


Rioeduca- Como as escolas públicas podem oportunizar ambientes criativos ?

Anna Penido- É fundamental que as escolas estejam conectadas com tendências e práticas inovadoras, para ampliar suas referências e enriquecerem seu repertório de possibilidades. Também é importante que gestores e professores sejam capacitados e estimulados a criar novas práticas e materiais pedagógicos. Também aposto muito na criação de uma cultura de inovação dentro das próprias redes de educação, inclusive via promoção de oficinas em que professores, alunos e outros atores da comunidade são convidados a criar soluções para os problemas que enfrentam, em processo contínuo de reinvenção, sempre amarrado por um sistema eficiente de avaliação, validação e difusão das inovações que dão certo.



Rioeduca - Qual é o olhar em relação a formação de professores para inovar no uso das ferramentas que estimulam os alunos a aprender mais ?

Anna Penido- Os professores precisam mudar a visão sobre a sua própria profissão, como muitos outros profissionais tiveram de fazer. Se antes eram especialistas que transmitiam conteúdos, hoje precisam se entender como designers da aprendizagem. Ou seja, educadores que compreendem a necessidade de formação dos seus alunos e acionam diferentes fontes de conhecimento, práticas e recursos para permitir que a aprendizagem e o desenvolvimento aconteçam. Para que isso seja mais do que uma aspiração, é fundamental que os programas de formação inicial e continuada de professor tenham essa missão e direcionamento, além de permitir que os educadores vivenciem essas novas abordagens, a fim de que possam replicá-las com seus estudantes.   

 


 

Diretora do Inspirare. Jornalista formada pela UFBA, com especialização em Direitos Humanos pela Universidade de Columbia e em Gestão Social para o Desenvolvimento pela UFBA. Em 2011, participou do programa Advanced Leadership Initiative da Universidade de Harvard. Trabalhou como repórter para o jornal Correio da Bahia e para as revistas Veja Bahia e Vogue. Integrou as equipes da Fundação Odebrecht e do Liceu de Artes e Ofícios da Bahia. Fundou e dirigiu a CIPÓ – Comunicação Interativa. Coordenou o escritório do UNICEF para os Estados de São Paulo e Minas Gerais. É fellow Ashoka Empreendedores Sociais.

 

 

 

 

                               

 

 

 


   
           



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Quarta-feira, 13/07/2016

Criatividade: Entrevista com o Professor Alex Sandro Gomes

Tags: criatividade, entrevista, alex gomes.

 

 

Como trabalhar a criatividade na escola? Podemos ensinar? É uma habilidade que já é atávica?

 

Acompanhe a entrevista com o Professor Alex Sandro Gomes e vamos abrir o debate.

 

Rioeduca: Por que a Criatividade é tão importante para a educação?

Alex Sandro Gomes: Pois ela permite que se crie soluções que ainda não foram pensadas. Mais importante que ensinar respostas é necessário desenvolver as habilidades para formular perguntas e de criar soluções possíveis. A criatividade entre nas duas habilidades.

 

Rioeduca: Será que todos nós somos criativos?

Alex Sandro Gomes: Sim. A criatividade é um tipo de raciocínio. Algumas pessoas podem ter habilidades mais desenvolvidas que outras, mas todos temos uma versão dessa raciocínio e estamos sempre o evoluindo.

 

Rioeduca: A criatividade pode ser apreendida ou incentivado?

Alex Sandro Gomes: Ela pode ser desenvolvida por meio de vivências, desafios, dinâmicas, expressões. Sempre que somos solicitados a encontrar uma solução para o que ainda não sabemos a resposta, entram em ação raciocínios que combinam nossos conhecimentos anteriores. Quanto mais relações e quão mais inusitadas forem as associações melhor para o desenvlvimento da criatividade.

 


Rioeduca: Existem pessoas que já nascem criativa?

Alex Sandro Gomes: Pode ser que sim, visto que parte do que conseguimos fazer depender de nossa constituição física. Nascemos com inclinações específicas e podemos dizer que algumas pessoas nascem mais inclunadas a desenvolver com mais facilidades o raciocínio criativo.

 


Rioeduca: Qual seria o eixo estruturante de uma boa formação de professores para a criatividade em educação?

Alex Sandro Gomes: Seria um eixo que estimulasse a produção de formas distintas de expressão de conhecimentos. Ao construir uma ampla gama de representações, as pessoas são naturalmente levadas e pensar sobre as distintas propriedades entre os conceitos envolvidos. Os professores precisam desenvolver habilidades para criar situações didáticas distintas para ensinar um mesmo conceito. Na mesma direção, os professores precisam desenvolver habilidades para planejar didáticas que permitam relacionar conceitos tal qual são definidos em distintas áreas do conhecimento. Assim eles estão ajudando os alunos a desenvolver raciocínios por meio dos quais combinam elementos para propor como novas soluções. Os seja, o professor precisa ajudar a desenvolver o raciocínio criativo.

 


Rioeduca: Pensando no professor criativo, como ele pode planejar as aulas, sequências e cenários utilizando as técnicas de design?

Alex Sandro Gomes: O raciocínio de design é uma forma estrutura em um 'método' do pensamento criativo. O método é uma estratégia de resolução de problemas que permite lidar com uma grande quantidade de variáveis. Ele ocorre em ciclos e passa por fases tais como: imersão, síntese, ideação, prototipagem e avaliação. Para cada uma dessas fases são conhecidas técnicas que ajudam na construção das soluções. Esse método é hoje muito bem estabelecido e muito usado em muitas áreas da atividade humana. No voume 3 da série Professor Criativo tentamos explicar como o método de design pode ser adotado no planejamento docente e assim fazer com que o professor também usufrua desse método em sua prática.

 


Rioeduca: Como superar a simples utilização das TIC´s para uma experiência de aprendizagem autentica e inovadora?

Alex Sandro Gomes: A efetividade do uso de TIC's na prática docente não pode prescindir de um planejamento detalhado pois é uma atividade complexa e envolve muitas variáveis. Estamos propondo usar o método de design para planejar esse tipo de experiência de aprendizagem. Dessa forma, entendemos que o professor poderá ao planejar eliminar riscos ao insucesso, detalhar pequenas necessidades, identificar suas necessidades e assim usar as TIC's com mais conforto em sua prática, ao mesmo tempo que consegue obter melhor retorno e aceitação de suas iniciativas.

 


Rioeduca: Em um mundo que demanda cada vez mais soluções criativas para problemas complexos qual seria o papel do professor nesse cenário?


Alex Sandro Gomes: Ajudar com que os alunos sejam mais inteligentes e mais criativo que a geração que os educa. Esta frase foi elaborada por Jean Piaget ainda na década de 1970.


Para saber mais acesse Série Professor Criativo

 Ou acesse os Livros.

Volume 1

Volume 2

Volume 3

 


Alex Sandro Gomes é Engenheiro Eletrônico (UFPE, 1992), Mestre em Psicologia Cognitiva (UFPE, 1995) e concluiu o doutorado em Ciências da Educação pela Université de Paris v (René Descartes) em 1999. Atualmente é Professor no Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco, Bolsista de Produtividade Desen. Tec. e Extensão Inovadora 2 do CNPq e membro da Academia Pernambucana de Ciências. Atua com a concepção de ambientes colaborativos de aprendizagem. Publicou mais de 200 trabalhos em periódicos especializados e em anais de eventos, orientou ou co-orientou mais de 60 dissertações de mestrado e teses de doutorado na área. Atuou como coordenador dos eventos SBIE e IHC, promovidos pela SBC. Atuou como membro das comissões especiais de Interação Humano Computador e Informática Educativa da SBC. É líder do grupo de pesquisa Ciências Cognitivas e Tecnologia Educacional . É Coordenador das comunidades de software livre Amadeus e Openredu.

 

 

 

                               

 

 

 


   
           



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Sexta-feira, 20/05/2016

Os Desafios do Professor do Século XXI

Tags: entrevista, lab, education.

 

 

Entrevista com Professora Neuza Pedro sobre o Professor do Século XXI e sobre o uso do modelo Lab. Excelente relexão para fazermos diferente e melhor.

 

RIOEDUCA -Quem é o professor do século XXI e quais os seus desafios?

Neuza  Pedro - Diria que é um professor sobretudo aberto à mudança, confiante em si, no seu saber curricular e pedagógico mas disponível para mudar para fazer diferente. É um professor cientificamente capacitado, mas com sentido crítico e em constante atualização profissional. É um professor pedagogicamente formado mas flexivel o suficiente para saber acolher o que a cada dia se descobre de novo acerca da aprendizagem e do processo cognitivo no ser humano. É um professor que valoriza o saber e que por tal valoriza todos os meios de acesso ao saber, sejam eles analógicos, tecnológicos, … que o futuro nos trouxer. É ainda um professor positivo e empoderecedor, que acredita nas capacidades dos seus alunos e que atua sempre para que estes consigam ir além de si mesmos.  Que desafios enfrentam? São inumeros; como sempre foram, aliás. Não acho a atualidade das escolas seja particularmente mais dificil do que qualquer uma das décadas que nos antecederam. Os desafios são outros, nem mais, nem piores. Mas são realmente numerosos e por isso vou eleger 2: a qualificação docente e direito a uma regular atualização profissional, e o combate à burocratização do sistema (educativo).

 

RIOEDUCA - O professor ainda pode ser considerado o “core” da inovação em educação?

Neuza  Pedro - Sem dúvida. Não há ideia inovadora em educação, por melhor e mais inovadora que seja, que se revele “à prova de professor”. Muito dificilmente se consegue inovar se essa inovação não for incorporada numa mudança da prática docente, naquilo que estrutura o dia-a-dia em sala de aula. Contudo, há que notar que isto não significa que a mudança nas práticas dos professores, por si só garante inovação. A inovação em educação tem que ser entendida como uma processo de modernização sistémica, ou seja, que envolve todos os agentes e todas as engrenagens do sistema educativo. Um professor sozinho não faz inovação, no máximo faz alguma agitação; perturba um pouco as rotinas, suscita curiosidades, alimenta algumas invejas… mas ainda lhe falta alguns passos para conseguir estabelecer uma inovação. Dois professores? Assim sim, começa a mudar tudo. Um grupo de professores, com o diretor certo e mais o apoio de 2 ou 3 pais? Ai sim; ruma-se à inovação.

 

 

RIOEDUCA - Diversos modelos são apresentados com base na integração de tecnologias. Essa é ainda uma tendência da “Escola do Futuro” no mundo ?

Neuza Pedro - Há quem defenda que a escola se deve manter à margem da sociedade, que se deve preservar do turbilhão de problemas políticos, sociais e económicos que desvirtuam a paz necessária para a aprendizagem. Recordo o que Alain, notável filósofo francês, nos indicava “A escola é um lugar admirável. Gosto que os ruídos exteriores não entrem nela.” Compreendo a perspetiva mas, em humildade, permita-me discordar em absoluto. A ideia de muros que separam a escola da realidade social e do mercado de trabalho assusta-me. Assim, entendo que enquanto as tecnologias estiverem integradas nas práticas diárias dos cidadãos tanto em sua atividade laboral, como em situação sociais e de lazer, então elas têm necessariamente que ser integradas na escola. A escola e a vida devem ser uma e a mesma coisa. Não consigo imaginar uma escola de futuro, ou seja, para o futuro e com futuro onde a tecnologia não tenha presença, ou que até lá possa estar desde que seja desligada… Parece-me uma perda de oportunidades imensa, sobretudo nos contextos socioeconomicos mais deprimidos onde o acesso ao conhecimento ainda é tão restrito! Há já alguns anos, na União europeia definiu um quadro de referência para todos os países memberos onde sinaliza como fundamental o domínio de 8 competências-chave: a comunicação na língua materna e em línguas estrangeiras, a competência matemática e competências básicas em ciências e tecnologia, a competência digital, o aprender a aprender, as competências sociais e cívicas, a iniciativa e espírito empresarial, e finalmente a sensibilidade e expressão culturais. Gosto sempre de referir que as tecnologias aparecem por duas vezes: as competências básicas em tecnologia e as competências digitais. Lamento ter que indicar que nem umas nem outras estão a ser adequadamente consideradas nos curriculos, nem tranversalmente trabalhadas na generalidade das escolas de hoje. Por isso diria que se deverá ser uma tendência? Absolutamente que sim. Mas que se é hoje realmente uma tendência? Ainda não...

 

 

RIOEDUCA - Qual é a proposta do Future Teacher Education Lab ? Ela pode ser replicada? 

Neuza Pedro - A proposta é simples, complexamente simples e portanto acho que é totalmente replicável. Ao criarmos no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa o FTE-lab tivemos 2 ideias de base. A primeira. Em muitos países tem-se assistido a programas nacionais ou iniciativas locais de apetrechamento tecnológico das escolas do ensino básico e secundário, sobretudo na última década. Logo as escolas têm vindo a ter cada vez mais acesso a computadores, tablets, internet, etc.. De igual modo, os alunos têm cada vez cedo acesso a celulares com serviço de internet bastante rápida. Contudo, os professores e educadores, tanto aqueles que se encontram nas escolas como os recém-formados, não revelam a bagagem necessária para saber tirar partido pedagógico dessas tecnologias. E um dos principais motivos para essa limitação na formação dos professores é a falta de formação que os professores universitários têm na utilização pedagógica das tecnologias. Logo entendemos prioritário investir na qualificação técnico-pedagógica dos professores do ensino superior. A segunda ideia ligava-se ao facto de percebermos que se queremos vir a ter ‘salas de aula do futuro’, ou seja, inovadoras e potencializadora de abordagens pedagógicas ativas, precisamos ter professores que saibam atuar nelas, ou seja, precisamos preparar professores que estejam orientados para o futuro. Logo há necessidade de modernizar a própria formação inicial de professores, educadores, pedagogos, etc. Todos os profissionais tendem a repetir as práticas a que foram expostos; assim, se se pretende professores inovadores, as universidades têm que criar espaços onde a inovação em sala de aula seja vivenciada pelos futuros profissionais que aí se formam. Foi, para responder a estas duas ideias- mas que sinalizam na verdade um único problema: a falta de inovação e de modernização tecnológica das universidades- que o FTE-Lab foi criado. Optámos por chamar-lhe laboratório porque muitas vezes estamos realmente a fazer experiências, ou seja, não sabemos bem em que é que vai resultar… Ele organiza-se numa sala equipada com as mais modernas tecnologias digitais (paineis interactivos, impressoras 3D, tablets, robots, et.), com um layout adaptável e mobiliário flexível, de modo a permitir a exploração de novos cenários de ensino-aprendizagem com tecnologias digitais na formação inicial de professores; e de desenvolver workshops regulares sobre utilização educativa das tecnologias e ambientes online no ensino superior. O espaço foi criado em 2015 e com um orçamento bastante baixo: zero euros. Tinhamos muita vontade mas nenhuma fonte de financiamento. Resolvemos contactar diversos parceiros comerciais que haviamos conhecido no âmbito do Projeto ITEC, que acabou por promover a criação da Future Classroom da European Schoolnet, atualmente existente em Bruxelas. E pedimos aos parceiros que nos dissessem o que poderiamos oferecer-lhes de modo a que eles quisessem patrocinar a constituição desta sala no Instituto de Educação. Foi estabelecendo protocolos de parceria com essas empresas que conseguimos que estes disponibilizassem os equipamentos que precisávamos. A maioria dos equipamentos não nos foi oferecido mas sim ‘alocado ao espaço por tempo indefinido’… Nesses protocolos assumimos o compromisso de desenvolver para as empresas vários serviços, como seja, a criação de ‘videos ‘, documentação de ‘boas-práticas’ de utilização dos seus produtos, apoio ao desenvolvimento de estudos, testagem de soluções educativas em desenvolvimento, etc. Claro que acabou por haver alguma verba que teve ser ser investida no espaço por parte do Instituto na aquisição de algum mobiliário e obviamente houveram muitas horas de trabalho investidas por parte dos professores e investigadores envolvidos no projeto mas com o esforço e a boa-vontade de todos os envolvidos, o espaço foi criado com base num modelo muito em conta e encontra-se a funcionar em pleno. Temos imensos pedidos de visitas por parte de outras universidades nacionais e internacionais, de professores, de associações, empresas, e procuramos sempre ajustar o calendário para conseguir receber todos os interessados em vir conhecer o espaço e o que nele fazemos. Para nós é uma honra, receber pessoas interessadas no nosso trabalho.

 


Neuza Pedro, Professora no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Doutorada em Educação na especialidade TIC na Educação com Mestrado em Psicologia da Educação. Possui vários cursos de pós-graduação na área de Online teaching, tanto pela Universidade de Adger-Noruega como pela Universidade de Wisconsin-Stout nos Estados Unidos. Assume atualmente a coordenação do Mestrado em Educação e Tecnologias digitais e é, desde 2010, coordenadora do Laboratório de e-Learning da Universidade de Lisboa. Participou em vários estudos e projetos tanto nacionais como internacionais ligados à integração educativa das tecnologias de entre os quais se destaca: Project teL@FTE-Lab (Technology enhanced learning at Future Teacher Education), ITEC Project, Future Classroom Lab, Estudo Intel Teach Advanced Online, LEARN- Math, Technology & society, DALEST, WEBLABS.

 

 

 

 

 

 

                               

 

 


   
           



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Quinta-feira, 03/12/2015

Fab Labs - Novo Conceito de Laboratórios Abertos

Tags: inovação, professores, tecnologias.

 

 

 

 

 

Conheça o Fab Lab, uma maneira de dinamizar o uso de novas tecnologias. A Heloisa conta sobre esse tipo de trabalho.

 

 

 

RIOEDUCA: Qual é a principal proposta dos Fab Labs? Como começou?

HELOISA NEVES: Um Fab Lab (abreviação do termo em inglês fabrication laboratory) é uma plataforma de prototipagem rápida de objetos físicos e está inserido em uma rede mundial de três centenas de laboratórios: dos Estados Unidos ao Afeganistão, da Noruega à Gana, de Costa Rica à Holanda.

Ele se destina aos empreendedores que querem passar mais rapidamente da fase do conceito ao protótipo; aos designers, aos artistas e aos estudantes que desejam experimentar e enriquecer seus conhecimentos práticos em eletrônica, em CAD/CAM1, e também aos makers2 e hackers3 do século XXI.

Um Fab Lab agrupa um conjunto de máquinas por comando numérico de nível profissional, porém de baixo custo, seguindo um padrão tipológico. São exemplos: uma máquina de corte a laser capaz de produzir estruturas 2D e 3D, uma máquina de corte de vinil que fabrica antenas e circuitos flexíveis, uma fresadora de alta resolução para fabricar circuitos impressos e moldes, uma outra maior para criar peças grandes. Há também componentes eletrônicos múltiplos, bem como ferramentas de programação associadas a micro controladores abertos, de baixo custo e eficientes. Estes dispositivos são controlados por meio de um software comum de concepção e fabricação assistida por computador. Os outros sistemas mais avançados, tais como as impressoras 3D, podem igualmente equipar certos Fab Labs.

Apesar das máquinas de comando numérico serem uma grande atração nos Fab Labs, a característica principal desse laboratório é sua “abertura”. Contrariamente aos laboratórios tradicionais de prototipagem rápida que podem ser encontradas em empresas, em centros especializados dedicados aos profissionais ou universidades, os Fab Labs são abertos a todos, sem distinção de prática, diploma, projeto ou uso. Eles se inscrevem no movimento do “terceiro lugar”4 e nos mecanismos de trabalho colaborativo da internet e, em particular, da web 2.0. Os mecanismos de troca, de peer-to-peer5, de colaboração, de cooperação, de interdisciplinaridade, de compartilhamento, de aprendizagem através da prática, do “do it yourself6, de práticas inovadoras ascendentes e comunitárias são favorecidas e encorajadas. Tal abertura, chave do sucesso e da popularidade dos Fab Labs, facilita os encontros, o acaso e o desenvolvimento de métodos inovadores para o cruzamento de competências. Esses espaços abertos a todos e acessível (tarifas baixas ou, mesmo, o acesso livre) favorece a redução de barreiras à inovação e à constituição de um terreno fértil à inovação.

O primeiro Fab Lab surgiu no Massachusetts Institute of Technology (MIT)7, mais especificamente no laboratório interdisciplinar chamado Center for Bits and Atoms (CBA)8 fundado em 2001 pela National Science Foundation (NSF)9. Esse ambicioso centro de pesquisa tem como objetivo o interesse pela revolução digital e, em particular, pela fabricação digital, cujas evoluções poderiam, eventualmente, produzir ferramentas capazes de unir a matéria ao nível atômico. Os Fab Labs10 são para o CBA o componente educacional de sensibilização à fabricação digital e pessoal, democratizando a concepção das tecnologias e das técnicas e não somente o consumo.

O primeiro Fab Lab foi implantado no CBA sob a liderança de Neil Gershenfeld11, professor e diretor do CBA, vinculado ao célebre MIT Media Lab. Seus campos de pesquisa são bastante interdisciplinares, da física à computação quântica, da nanotecnologia à fabricação pessoal. Durante seu discurso na conferencia TED 200612, Gershenfeld retorna à gênese dos Fab Labs: “a fim de trabalhar questões de fabricação digital, o CBA obteve um financiamento importante para compra de máquinas capazes de fabricar qualquer coisa em qualquer escala. Eu passei muito tempo ensinando aos estudantes como usar as ferramentas. Para facilitar esse processo, criei um curso intitulado “How to Make Almost Anything” (tradução: "como fazer quase qualquer coisa"). Estudantes de todos os cursos apareceram. Eles não possuíam necessariamente as habilidades técnicas, mas todos eles produziram resultados incríveis, surpreendentes. E eu percebi que o “killer product” (aquele que desencadeia o surgimento de um mercado) da fabricação pessoal é o produto que trata de um mercado de uma pessoa. Não há necessidade de proceder a tais dispositivos para fabricar um produto que encontramos na grande distribuição, mas eles são úteis para fabricar o que é único. Os estudantes, portanto, inverteram as máquinas para inventar a fabricação pessoal (...).”

Nesse contexto e, além do espaço da universidade, os Fab Labs foram criados seguindo um modelo que provém da internet, mais especificamente da web colaborativa 2.0, que auxiliou na democratização das ferramentas de compartilhamento, de edição, criação e deu a permissão ao usuário de se transformar em “ator” do processo.13

 

Neste sentido, os Fab Labs devem responder a algumas questões:

  • Ser vetor de empoderamento, de implementação de capacidade, ser um organismo ativo;
     
  • Voltar à aprendizagem da prática da tecnologia (o fazer) na criação de protótipos, permitindo espaço para o erro de forma incremental, e no privilégio das abordagens colaborativas e transdisciplinares;
     
  • Responder aos problemas e questões locais, em particular nos países em desenvolvimento, apoiando-se na rede internacional;
     
  • Valorizar e pôr em prática a inovação ascendente;
     
  • Ajudar a incubar empresas para facilitação de processos.
     


O conceito de Fab Lab foi criado inicialmente pelo CBA-MIT e financiado em parte pela NSF emancipou e desenvolveu-se internacionalmente, independente do seu criador. De acordo com Gershenfeld, o número de laboratórios dobra todos os anos.14 Hoje, a página web oficial da rede Fab Lab conta com aproximadamente 600 laboratórios (em operação e/ou planejamento).  

 

Mapa da rede mundial de Fab Lab.

 

A dimensão “rede” está inscrita na essência do Fab Lab por diversos motivos.


Primeiramente, os Fab Labs seguem a internet e, como tal, são formidáveis plataformas de inovação colaborativa. Em segundo lugar, facilitam sobremaneira a abertura, a conexão entre pessoas e organizações, as trocas e os cruzamentos entre os membros que o utilizam.

Além disso, o kit padrão de máquinas por comando numérico comum aos diferentes Fab Labs permite replicar processos desenvolvidos em qualquer laboratório, independentemente de sua localização. Essa singularidade tecnológica permite e facilita o compartilhamento do conhecimento e do saber. Vale ressaltar que essas trocas não são dirigidas unicamente sobre um eixo global norte-sul, apresentando múltiplos vetores horizontais. A rede desenvolveu uma comunidade mundial alimentada pelas especificidades culturais, técnicas, econômicas e sociais. A criação de um projeto colaborativo se dá em função de competências locais disponíveis, sendo que todos os interessados participam na realização de alguma tarefa. Uma vez prototipado o objeto e testados os processos, o projeto pode facilmente ser replicado pelos outros Fab Labs da rede.


Para atuar em rede, os Fab Labs compartilham os mesmos princípios e processos. Mais do que um espaço com máquinas, são laboratórios feitos por pessoas, abertos à experimentação e troca de ideias.


ABERTURA: Primeiro ponto e o mais importante: a abertura do Fab Lab ao público é essencial. Um Fab Lab tem como objetivo democratizar o acesso às ferramentas e máquinas para permitir a invenção e as expressões pessoais. O Fab Lab deve ser aberto ao público, gratuitamente ou em troca de serviços (auxílio nas rotinas diárias, formação, palestras, workshops, etc) ao menos uma vez por semana.


CARTA DE PRINCÍPIOS: Os Fab Labs seguem a Fab Charter, uma carta de princípios que deve ser afixada no espaço de cada Fab Lab e em seus respectivos sites.


MÁQUINAS E PROCESSOS: Os Fab Labs devem compartilhar ferramentas e processos comuns. Ser apenas um laboratório de prototipagem ou simplesmente possuir uma impressora 3D não é o equivalente a um Fab Lab. Os laboratórios compartilham o conhecimento, o saber, os arquivos, a documentação e colaboram uns com os outros local e internacionalmente. Se um Fab Lab fabrica algum objeto em Boston, por exemplo, e envia os arquivos e a documentação necessária, você deve poder reproduzi-lo facilmente em qualquer outro Fab Lab do mundo.


REDE FAB LAB: Você deve participar ativamente da rede de Fab Labs, não permanecendo isolado, mas, sim, fazendo parte de uma comunidade de compartilhamento de conhecimento. A vídeo conferência é uma das ferramentas para entrar em contato com outros Fab Labs, assim como participar dos encontros anuais, colaborar e realizar parcerias através de workshops, projetos, concursos com outros Fab Labs.
 


1. Em inglês: CAD (Computer Aided Design - Projeto Assistido por Computador) e CAM (Computer Aided Manufacturing - Fabricação Assistida por Computador)

2. Maker: um maker é a pessoa que faz ou fabrica os objetos com suas próprias mãos, desenvolvendo todo o processo. Está relacionado com o movimento DIY (do it yourself – faça você mesmo). É um conceito antigo, mas que passou a ter grande importância com a surgimento dos novos espaços de produção desencadeados com a revolução digital.

3. Hacker é um indivíduo que se dedica, com intensidade incomum, a conhecer e modificar os aspectos mais internos de dispositivos, programas e redes de computadores.

4. Verificar sobre o conceito de “terceiro lugar” no livro de referência do sociólogo americano Ray Oldenburg, The Great Good 5. Place: Cafes, Coffee Shops, Community Center, Beauty Parlors, General Stores, Bars, Hangouts and How They Get You Through the Day. EUA: Paragon House, 1989.

5. "Par a par ou ponto a ponto", na tradução ao português.

6. "Faça você mesmo", na tradução ao português.

7. Para maiores detalhes, ver: www.web.mit.edu.

8. Para maiores detalhes, ver: www.cba.mit.edu.

9. Para maiores detalhes, ver: www.nsf.gov.

10. Para maiores detalhes, ver: www.fab.cba.mit.edu.

11. Para maiores detalhes, ver: http://en.wikipedia.org/wiki/Neil_Gershenfeld.

12. Para maiores detalhes, ver: http://www.ted.com/talks/neil_gershenfeld_on_fab_labs.html.

13. Para maiores detalhes, ver: http://fab6.nl.

14. Para maiores detalhes, ver: https://vimeo.com/25814127.

 


 

RIOEDUCA: O Fab lab é viável em uma grande rede pública?

HELOISA NEVES: Fab Labs são realmente para serem trabalhados em rede. Para uma rede pública, eu tentaria implementar hubs, ou seja, laboratórios geograficamente bem localizados e que possam ser utilizados por várias escolas ao mesmo tempo. Nao faz sentido cada escola ter o seu porque a grande vantagem de um Fab Lab é fazer junto, colaborativamente. O ensino tem muito a ganhar se a dimensão da rede também se expandir para os laboratórios das escolas, tornando-os mais compartilháveis, pois, num ambiente assim, as ideias surgem mais facilmente, se aprende mais e obtêm-se olhares mais diferentes sobre o mesmo assunto. Outro ponto importante, quando pensamos em hubs, é o fator custo. Um Fab Lab tem um custo inicial de abertura de 800K, incluindo máquinas, consumíveis, treinamentos e salários para equipe durante o primeiro ano. Por ser um custo mais elevado, faz sentido que várias escolas possam se beneficiar dele.

 

RIOEDUCA: Qual a dica para um(a) professor(a) iniciar um Fab lab na sua escola?

HELOISA NEVES: Comece com uma atitude maker. Mais do que máquinas, o movimento maker traz consigo um novo jeito de “fazer”. Se o professor entender as bases conceituais do movimento, ele pode aplicá-las em qualquer lugar, inclusive dentro da sala de aula. Para exemplificar, quando um professor deixa seu posto de “pessoa que sabe tudo” e passa a ser o facilitador dos alunos, ajudando-os a compreender coisas que nem ele sabe, ele se torna um maker. Quando um professor usa uma rede de contatos e coloca seus alunos para aprender com essa rede e com os próprios colegas, ele esta sendo maker. Quando um professor acolhe um projeto pessoal de um aluno e o ajuda a entender como seguir adiante, também está começando ali a plantar uma sementinha do que pode vir a ser um Fab Lab. Um Fab Lab é bastante conhecido como um lab de máquinas, mas, sem pessoas e suas atitudes, as máquinas nao servem para nada. Claro que é importante conhecer as novas tecnologias, e acho que criar um laboratório físico é importante. Porém, uma coisa nao anda sem a outra. Tecnologia pela tecnologia não traz inovação e uma educação melhor. Professores makers com acesso à tecnologia podem revolucionar o mundo.

 

RIOEDUCA: Que competências são desenvolvidas no espaço de um Fab Lab ?

HELOISA NEVES: As que mais se sobressaem são competências que, às vezes, ficam um pouco distantes do universo educacional: inovação, criatividade, autonomia, empoderamento, empreendedorismo.

 

RIOEDUCA: As redes públicas caminham em direção à educação integral. Como os Fabs Labs podem melhorar a experiência escolar do aluno nessa modalidade?

HELOISA NEVES: Os Fab Labs vêm atuando no mundo todo no contraturno e em projetos especais. Esse foi o caminho encontrado para que pudéssemos entrar nas escolas. Os EUA já possuem hoje um currículo e as escolas que se baseiam totalmente no movimento maker, mas ainda há um longo caminho para que o cerne da educação se transforme. E o caminho é longo exatamente por conta do que falei acima, precisamos de professores makers e não somente de máquinas. Comprar máquinas é fácil e rápido, quando se tem dinheiro. Mas, empoderar professores, acolhê-os dentro do mundo maker e dar a eles espaço e apoio as suas dificuldades talvez seja a tarefa mais difícil e a que demora mais. Portanto, acho que vale a pena começar pequeno, construindo bases fortes, ainda que no contraturno e em projetos especiais. Dessa primeira ação, outras irão surgindo pela própria iniciativa dos alunos e professores. É totalmente bottom-up e, por isso, seja tão difícil e tão delicioso.

 


HELOISA NEVES:

Criadora da empresa WE FAB (que conecta movimento maker com inovação através de sua metodologia Maker Innovation), professora de Design para o curso de Engenharia do Insper, e coordenadora do Insper Fab Lab. Vem trabalhando com o universo maker desde que decidiu tirar um ano sabático e realizar o curso Fab Academy no Fab Lab Barcelona. Desde aí, implementou vários laboratórios makers e Fab Labs, e auxiliou empresas e outras instituições a implementar uma cultura mais focada no hands-on, colaboração e agilidade.
 

 

 

 

 

 

                               

 

 

 


   
           



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