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Quinta-feira, 31/08/2017

Professores Homens na Educação Infantil

Tags: educação, infantil.

 

 

PROFESSORES HOMENS NA EDUCAÇÃO INFANTIL:
A EXPERIÊNCIA DE UMA MINORIA NO MUNICÍPIO CARIOCA

 


Autor: Rodrigo Ruan Merat Moreno

 


Ao adentrar em algumas, poucas, salas de Educação Infantil no Município do Rio de Janeiro temos a oportunidade de ver professores homens, sentados em roda com as crianças, levando ao banheiro, trocando fraldas, dando banho, participando dos momentos de alimentação. Para muitos essa cena causa um estranhamento: “Não seria mais adequado uma mulher cuidar de uma criança tão pequena?”.

Quebrando diferentes paradigmas, de acordo com dados do Censo Escolar, cerca de 3% dos docentes que atuam na Educação Infantil no Brasil são do sexo masculino. Focalizando na Rede Pública da cidade do Rio de Janeiro, considerada a maior Rede da América Latina, vislumbramos um cenário que se assemelha a de uma minoria. Dos professores que ingressaram nos dois primeiros concursos para o cargo, nos anos de 2010 e 2012, apenas 97 são homens, de um total de 5.017 professores, conforme o Recursos Humanos Geral da Prefeitura do Rio de Janeiro informou no ano de 2016. 

Ressalta-se que no último concurso para o cargo de Professor de Educação Infantil, realizado em 2015, nas três primeiras convocações para posse realizadas em março, abril e junho de 2016, dos 1647 candidatos convocados, somente 30 eram homens, ou seja, apenas 1,82% dos convocados eram do sexo masculino. 

Com esses pressupostos, ponderando sobre essa minoria e tentando responder diferentes questões que surge e desenvolve a pesquisa: “Professores Homens na Educação Infantil do Município do Rio de Janeiro: Vozes Experiências, Memórias e Histórias”. 

A referente investigação buscou entender parte da dinâmica que envolve as histórias de vida dos professores homens que atuam na Educação Infantil da Rede Municipal de Educação do Rio de Janeiro. A pesquisa tinha como objetivo central conhecer e compreender como os movimentos da vida fizeram com que os homens optassem pelo ofício da educação e cuidado da criança pequena, além de identificar e mapear o quantitativo de docentes homens atuando na EI no Município Carioca, analisar como foi o processo de escolha e inserção na presente Rede e, por fim, compreender como a memória, as experiências e as histórias de vida contribuíram para o desenvolvimento da identidade profissional desses educadores.

Como metodologia, foram utilizadas as histórias de vida atreladas às entrevistas como forma de compreender toda a dinâmica envolvendo esses educadores. Cabe esclarecer que as histórias de vida constituem uma metodologia na qual a subjetividade, a memória, o discurso e o diálogo se fazem presentes. Através das falas, o sujeito pondera sobre sua existência, resignificando sua vida por meio do tempo, transformando em dados para a pesquisa, onde percebemos aspectos culturais, sociais e históricos. Essa metodologia não é um desencadeamento de fatos e relatos ocorridos, mas um panorama de uma experiência de vida comunicada.

Durante o percurso deste estudo, conhecemos 15 professores de diferentes CREs, trazendo à tona temas referentes ao gênero, à relação com seus pares e à vivência com as crianças na prática pedagógica cotidiana.

As questões envolvendo as masculinidades e, consequentemente, o gênero percorreram grande parte das entrevistas com os educadores, mas não somente como um relato de fatos e/ou denúncias, mas trazendo diferentes análises sobre o papel e função do homem na prática com as crianças da Educação Infantil.

Dentre as tantas reflexões que tivemos nessa trajetória, percebemos a figura de um “homem exótico”, ou seja, esse que ocupa um espaço que “não” pertencente a ele, devido ao seu sexo e gênero, e que, consequentemente, causa um estranhamento em seu entorno. Sobre tal prespectiva, percebemos que a docência é um desses principais espaços de “questionamento”; pois, devido a fatores históricos, sociais, culturais e políticos, se configurou como uma profissão “exclusivamente” das mulheres, especialmente devido a sua vinculação o ato de “cuidar” e “maternar” associado ao gênero feminino.

Apesar de ter um contexto social no qual estão inseridos, a associação com o feminino é uma adjetivação que os professores não internalizam e/ou aceitam em sua prática, ou seja, eles não tendem a “feminilizar-se”. Os docentes vivem a especificidade de suas masculinidades, mas observamos em suas falas que eles entendem os fatores externos e de um ideário social e cultural que foi construído sobre suas imagens e seu papel. Refletimos, que, ao mesmo tempo em que vivem suas funções como docentes de crianças pequenas, seu lado “masculino diferenciado”, eles não negam que existam diferentes visões sobre ser homem.

Um dos dados que consideramos relevantes em nossa investigação é que não podemos generalizar que todos os professores homens passam e/ou sofrem situações adversas devido ao seu ofício com as crianças. Cabe ressaltar que não trazemos durante o estudo a palavra “preconceito”, pois cremos que ela é subjetiva e pode trazer diferentes interpretações sobre. 

Os questionamentos sobre “o lugar” desse docente, muitas vezes, vem de um contexto externo, como famílias, direções e educadores, porém observamos que tais questionamentos também possuíam uma origem e cunho interno, ou seja, dos próprios educadores. 

Notamos, que, com o passar dos anos no magistério direcionado à criança pequena, nossos professores criaram estratégias para as diferentes adversidades e também como forma de autoafirmação perante a eles mesmos e a sociedade. Acreditamos que as experiências vividas trazem esses ‘insights’ e novos modos de observar a realidade e resignificar sua masculinidade. Sim, homens podem cuidar e educar crianças pequenas!

Por fim, os resultados mostram que esses professores homens, que são uma minoria no sentido de vez e voz, rompem com diferentes barreiras, resignificam suas práticas e seu ser professor enfrentando diferentes questões e mostrando suas singularidades, que vão além ser somente um homem na educação e cuidado das crianças pequenas.

 

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Rodrigo Ruan Merat Moreno

Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC - RJ (2017), atualmente desenvolve pesquisa a cerca das histórias de vida dos Professores Homens que trabalham com Educação Infantil no Município do Rio de Janeiro. Pós-graduado em Educação Infantil (lato sensu) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO), concluído em 2012/2. Graduado em Pedagogia na Faculdade de Educação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) no ano de 2011. Desde 2013 é Professor do Município do Rio de Janeiro trabalhando com turmas de Educação Infantil. Atuou com turmas de Educação Infantil no Colégio Pedro II como Professor Substituto (contratado) durante os anos de 2013 e 2014. Trabalhou na Escola Oga Mitá com turmas de Educação Infantil durante o ano de 2010 até 2013. Tem experiência em pesquisa na área de Educação, com ênfase em Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: formação de leitores, práticas de leitura na escola e na sociedade, gênero, afetividade, masculinidades e Educação Infantil.

 


 


   
           



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