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Quinta-feira, 31/08/2017

Professores Homens na Educação Infantil

Tags: educação, infantil.

 

 

PROFESSORES HOMENS NA EDUCAÇÃO INFANTIL:
A EXPERIÊNCIA DE UMA MINORIA NO MUNICÍPIO CARIOCA

 


Autor: Rodrigo Ruan Merat Moreno

 


Ao adentrar em algumas, poucas, salas de Educação Infantil no Município do Rio de Janeiro temos a oportunidade de ver professores homens, sentados em roda com as crianças, levando ao banheiro, trocando fraldas, dando banho, participando dos momentos de alimentação. Para muitos essa cena causa um estranhamento: “Não seria mais adequado uma mulher cuidar de uma criança tão pequena?”.

Quebrando diferentes paradigmas, de acordo com dados do Censo Escolar, cerca de 3% dos docentes que atuam na Educação Infantil no Brasil são do sexo masculino. Focalizando na Rede Pública da cidade do Rio de Janeiro, considerada a maior Rede da América Latina, vislumbramos um cenário que se assemelha a de uma minoria. Dos professores que ingressaram nos dois primeiros concursos para o cargo, nos anos de 2010 e 2012, apenas 97 são homens, de um total de 5.017 professores, conforme o Recursos Humanos Geral da Prefeitura do Rio de Janeiro informou no ano de 2016. 

Ressalta-se que no último concurso para o cargo de Professor de Educação Infantil, realizado em 2015, nas três primeiras convocações para posse realizadas em março, abril e junho de 2016, dos 1647 candidatos convocados, somente 30 eram homens, ou seja, apenas 1,82% dos convocados eram do sexo masculino. 

Com esses pressupostos, ponderando sobre essa minoria e tentando responder diferentes questões que surge e desenvolve a pesquisa: “Professores Homens na Educação Infantil do Município do Rio de Janeiro: Vozes Experiências, Memórias e Histórias”. 

A referente investigação buscou entender parte da dinâmica que envolve as histórias de vida dos professores homens que atuam na Educação Infantil da Rede Municipal de Educação do Rio de Janeiro. A pesquisa tinha como objetivo central conhecer e compreender como os movimentos da vida fizeram com que os homens optassem pelo ofício da educação e cuidado da criança pequena, além de identificar e mapear o quantitativo de docentes homens atuando na EI no Município Carioca, analisar como foi o processo de escolha e inserção na presente Rede e, por fim, compreender como a memória, as experiências e as histórias de vida contribuíram para o desenvolvimento da identidade profissional desses educadores.

Como metodologia, foram utilizadas as histórias de vida atreladas às entrevistas como forma de compreender toda a dinâmica envolvendo esses educadores. Cabe esclarecer que as histórias de vida constituem uma metodologia na qual a subjetividade, a memória, o discurso e o diálogo se fazem presentes. Através das falas, o sujeito pondera sobre sua existência, resignificando sua vida por meio do tempo, transformando em dados para a pesquisa, onde percebemos aspectos culturais, sociais e históricos. Essa metodologia não é um desencadeamento de fatos e relatos ocorridos, mas um panorama de uma experiência de vida comunicada.

Durante o percurso deste estudo, conhecemos 15 professores de diferentes CREs, trazendo à tona temas referentes ao gênero, à relação com seus pares e à vivência com as crianças na prática pedagógica cotidiana.

As questões envolvendo as masculinidades e, consequentemente, o gênero percorreram grande parte das entrevistas com os educadores, mas não somente como um relato de fatos e/ou denúncias, mas trazendo diferentes análises sobre o papel e função do homem na prática com as crianças da Educação Infantil.

Dentre as tantas reflexões que tivemos nessa trajetória, percebemos a figura de um “homem exótico”, ou seja, esse que ocupa um espaço que “não” pertencente a ele, devido ao seu sexo e gênero, e que, consequentemente, causa um estranhamento em seu entorno. Sobre tal prespectiva, percebemos que a docência é um desses principais espaços de “questionamento”; pois, devido a fatores históricos, sociais, culturais e políticos, se configurou como uma profissão “exclusivamente” das mulheres, especialmente devido a sua vinculação o ato de “cuidar” e “maternar” associado ao gênero feminino.

Apesar de ter um contexto social no qual estão inseridos, a associação com o feminino é uma adjetivação que os professores não internalizam e/ou aceitam em sua prática, ou seja, eles não tendem a “feminilizar-se”. Os docentes vivem a especificidade de suas masculinidades, mas observamos em suas falas que eles entendem os fatores externos e de um ideário social e cultural que foi construído sobre suas imagens e seu papel. Refletimos, que, ao mesmo tempo em que vivem suas funções como docentes de crianças pequenas, seu lado “masculino diferenciado”, eles não negam que existam diferentes visões sobre ser homem.

Um dos dados que consideramos relevantes em nossa investigação é que não podemos generalizar que todos os professores homens passam e/ou sofrem situações adversas devido ao seu ofício com as crianças. Cabe ressaltar que não trazemos durante o estudo a palavra “preconceito”, pois cremos que ela é subjetiva e pode trazer diferentes interpretações sobre. 

Os questionamentos sobre “o lugar” desse docente, muitas vezes, vem de um contexto externo, como famílias, direções e educadores, porém observamos que tais questionamentos também possuíam uma origem e cunho interno, ou seja, dos próprios educadores. 

Notamos, que, com o passar dos anos no magistério direcionado à criança pequena, nossos professores criaram estratégias para as diferentes adversidades e também como forma de autoafirmação perante a eles mesmos e a sociedade. Acreditamos que as experiências vividas trazem esses ‘insights’ e novos modos de observar a realidade e resignificar sua masculinidade. Sim, homens podem cuidar e educar crianças pequenas!

Por fim, os resultados mostram que esses professores homens, que são uma minoria no sentido de vez e voz, rompem com diferentes barreiras, resignificam suas práticas e seu ser professor enfrentando diferentes questões e mostrando suas singularidades, que vão além ser somente um homem na educação e cuidado das crianças pequenas.

 

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Rodrigo Ruan Merat Moreno

Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC - RJ (2017), atualmente desenvolve pesquisa a cerca das histórias de vida dos Professores Homens que trabalham com Educação Infantil no Município do Rio de Janeiro. Pós-graduado em Educação Infantil (lato sensu) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO), concluído em 2012/2. Graduado em Pedagogia na Faculdade de Educação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) no ano de 2011. Desde 2013 é Professor do Município do Rio de Janeiro trabalhando com turmas de Educação Infantil. Atuou com turmas de Educação Infantil no Colégio Pedro II como Professor Substituto (contratado) durante os anos de 2013 e 2014. Trabalhou na Escola Oga Mitá com turmas de Educação Infantil durante o ano de 2010 até 2013. Tem experiência em pesquisa na área de Educação, com ênfase em Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: formação de leitores, práticas de leitura na escola e na sociedade, gênero, afetividade, masculinidades e Educação Infantil.

 


 


   
           



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Terça-feira, 22/08/2017

Novas Tecnologias e Sua Utilização Nas Aulas de Educação Física: O Caso do Rio De Janeiro

GLHEVYSSON DOS SANTOS BARROS
CLEONICE PUGGIAN
FELIPE DA SILVA TRIANI

Universidade do Grande Rio – UNIGRANRIO, Duque de Caxias, RJ, Brasil.


Resumo

Este artigo investiga a adoção de tecnologias da informação e comunicação (TIC) para as aulas de educação física, em especial os exergames, que envolve movimentos corporais durante os jogos. Sabe-se que a educação física escolar está mais relacionada com as questões da cultura corporal, no entanto podemos utilizar as tecnologias para trabalhar estes movimentos por meio dos jogos eletrônicos. Desta forma, o objetivo do estudo é investigar sobre o uso das mídias digitais pelos professores de educação física da SME-RJ, em especial o vídeo game, que constitui valiosa ferramenta pedagógica para ser utilizada no processo educacional.

Palavras chaves: Tecnologia da Informação e Comunicação, exergames, educação física escolar.

 

Introdução

Segundo Kenski (2010, p. 18), a definição de tecnologia é: “o conjunto de conhecimento e princípios científicos que se aplicam ao planejamento em um determinado tipo de atividade”. Assim, a tecnologia está nas coisas mais comuns do nosso cotidiano, porém pouco se percebe por ser algo tão simples e evidente. Como exemplo, ao realizarmos nossa alimentação, usamos talheres, fruto da tecnologia, pois estes itens foram planejados e construídos graças a “habilidade especiais de lidar com cada tipo de tecnologia, para executar ou fazer algo, o que é chamado de técnica”. 

Segundo Kenski (2010), viver sem a tecnologia atualmente, é difícil, pois como visto, ela faz parte do dia a dia. Na era contemporânea, a tecnologia é mais notória graças aos avanços científicos da humanidade. Nesse cenário, considerando o contexto educacional, as mídias digitais vêm surgindo como uma nova ferramenta de comunicação, possibilitando uma ampliação do processo ensino aprendizado (BARACHO; GRIPP; LIMA, 2012).

Essa ampliação segundo Sena (2011, p.2), é feita por meio da utilização da Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) nas escolas, servindo como opção de uso e suporte pelos professores, pois “possibilitam através das mídias e tecnologias novas formas de transmissões de conteúdos pedagógicos, aumentando o acesso de informação e reconfigurando o espaço escolar”.

Desta forma, é fundamental saber que, as Tecnologias da Informação e Comunicação estão presentificadas na contemporaneidade conforme citado e seu alcance é mundial, mas há discussões sobre a forma de utilizá-las (KENSKI, 2010). Embora não sejam os únicos, destacam-se nessa temática os cenários educacionais (SILVA, 2009; BIANCHI, 2010).

Para alguns educadores, os jogos eletrônicos tornam-se uma opção negativa para o processo educacional, pois além de fazer mal para visão, muitos alunos ficam desinteressados pelos estudos. Já na visão de outros educadores, os jogos vêm como uma opção de estimular mais a parte cognitiva do aluno, uma vez que há games que requerem muitas percepção e estratégias, desenvolvendo assim a inteligência (RODRIGUES JUNIOR; SALES, 2012).

Ao considerar a força das discussões sobre as novas tecnologias que ainda estão latentes na atualidade, o objetivo dessa pesquisa foi identificar, por meio de um questionário online, quais as tecnologias os professores de educação física da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (SME-RJ) utilizam nas aulas.

 

Percurso Metodológico

Na tentativa de atingir o objetivo deste manuscrito, adotou uma pesquisa qualitativa e quantitativa, tendo a revisão de literatura como procedimento metodológico e a análise estatística. Dessa maneira, para o levantamento de bibliográfica foi utilizado o Google Scholar ferramenta de busca. Já com relação aos dados quantitativos, foram coletados por meio de um questionário online aplicado com auxílio do programa SurveyMonkey, que é uma ferramenta para pesquisa online. Ressalta-se que a tabela apresentada no texto é uma parte da pesquisa de dissertação sobre o uso das tecnologias digitais nas aulas de educação física.

Com relação ao levantamento bibliográfico, o critério de inclusão se deu da seguinte maneira: foram selecionados os artigos publicados a partir do ano 2000 que se mostraram indispensáveis para referenciar o presente estudo.

Com relação ao questionário, tivemos um total de 160 professores de educação física da SME-RJ da 3ª, 4ª, 10ª e 11ª Coordenadorias Regionais de Educação (CRE) que contribuíram com a pesquisa. No entanto, a amostra foi composta por 139 docentes. Houve autorização por meio da SME-RJ para que este questionário fosse aplicado junto aos professores. Os mesmos responderam por meio de um link, que foram encaminhadas as escolas através de um e-mail pelas Coordenadorias de Educação.

 

Resultados e Discussão

Os dados foram coletados por meio de um questionário online direcionado aos professores de educação física da SME-RJ nos meses de maio e junho de 2016 e a análise dos dados caracterizou-se por meio de tabela. Sendo assim, a Figura I apresenta os equipamentos tecnológicos que os professores utilizam nas aulas de educação física. Ressalta-se que o professor poderia assinalar mais de um item.

 

Figura I. Aparatos que os professores de educação física da SME-RJ costumam utilizar nas aulas

 

Ao analisar a Figura I é possível perceber que 61,9% disseram que utilizam aparelho de som, 59% usam datashow nas aulas, 49,6% utilizam computadores, 40,3% utilizam televisão e DVD nas aulas, 25,2% utilizam smartphones, 23,7% utilizam câmera de fotografia/filmagem, 13,7% usam retroprojetor.

Além desses, 5% disseram que utilizam o vídeo game, esses dados induzem a reflexão de que a presença das tecnologias digitais nas escolas tem possibilitado o uso de novas ferramentas didáticas para o ensino, isto é, jogos eletrônicos (exergames). Além disso, corrobora-se com estudos anteriores ao discutir que os jogos constituem mais um suporte para o ensino (WEBER; SANTOS; CRUZ, 2014). Cabe ressaltar que os exergames são jogos eletrônicos que associam movimentos do corpo com os gestos realizado pelo jogador (VAGUETTI; MUSTARO; BOTELHO, 2011; RODRIGUES JUNIOR; SALES, 2012; BARACHO; GRIPP; LIMA, 2012).

Segundo Vaghetti, Mustaro e Botelho (2011), algumas universidades e escolas já pensam em colocar em suas grades curriculares os exergames como uma possibilidade, pois esses jogos além de serem benéficos para a saúde, por realizar atividades de variadas intensidade de acordo com cada jogo, exploram também as habilidades motoras durante sua prática.

No entanto, se torna indispensável que o professor oriente os alunos quanto ao uso inadequado/exagerado que pode ocasionar riscos à saúde (BARACHO; GRIPP; LIMA, 2012), com efeito, causar dependência, além de “prejuízos na questão social, profissional, familiar e profissional” (VAGHETTI; MUSTARO; BOTELHO, 2011, p.119).

Nessa direção, os jogos eletrônicos modernos fazem cada vez mais parte do cotidiano das crianças e adolescentes com idade escolar, exigindo mais movimentos corporais, além de possuir também uma qualidade gráfica excelente, diferente dos games antigos que eram restritos ao uso de botões, alavancas e imagens de baixa qualidade (JUNIOR; SALES, 2012).

Além disso, houve o caso de 21 professores de educação física que não quiseram opinar. Esses casos e outros que resistem ao uso das tecnologias nas aulas podem estar negando a cultura dos alunos. De fato, percebe-se que é necessário pensar em novas estratégias quando se refere ao processo pedagógico, já que a mídia eletrônica faz parte do cotidiano dos jovens e trazem para as aulas de educação física elementos que norteiam a cultura dos alunos, podendo contribuir para melhorias nos processos educacionais de ensino e aprendizagem, além de colaborar para formar um cidadão participativo e crítico (RODRIGUES JUNIOR; SALES, 2012).

Portanto, considerando o âmbito escolar e relacionando os resultados supracitados ao estudo de Baracho, Gripp e Lima (2012, p. 113) é visível que o uso da tecnologia se apresenta como:

 

  Um recurso potencializador do espaço de sala de aula tradicional. Podendo ser utilizado como uma nova forma de motivação dos alunos, uma vez que é dotado de alto poder de ilustração e constitui-se como uma ferramenta educacional que oportuniza diferentes experiências.

 

Desta maneira, a utilização de metodologias alternativas nas aulas, por intermédio das mídias e de programas educacionais, surge com intuito de contribuir e proporcionar aulas mais dinâmicas e prazerosas (AMORIM et al., 2012). Ressalta-se ainda que, os veículos midiáticos como jornais, televisão e internet possuem grande influência sobre os jovens (DINIZ; RODRIGUES; DARIDO, 2012).

Assim, segundo Diniz, Rodrigues e Darido (2012, p.186) “a escola enquanto instituição social está inserida neste contexto de intenso desenvolvimento, onde as mídias são componentes que ocupam um espaço expressivo no cotidiano”. Logo, a gestão pedagógica deve-se adequar e não ignorar o uso desses recursos nas escolas, já que vivemos em um mundo tecnológico (WEBER; SANTOS; CRUZ, 2014).

Com a sociedade vivendo nesse universo digital, muitos dos jovens fazem uso constante dos recursos tecnológicos no seu cotidiano e, com as tecnologias nas salas de aulas, há possibilidades de outras formas de aprendizagem pelos alunos, alternativas às tradicionais, pois muitos desses aparatos apresentam materiais e conteúdos pedagógicos de qualidade, enriquecendo e potencializando assim o aprendizado (WEBER; SANTOS; CRUZ, 2014).

 

Conclusão

Com o objetivo de identificar, por meio de um questionário online, quais as tecnologias os professores de educação física da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (SME-RJ) utilizam nas aulas, esse artigo analisou de maneira críticas os recursos tecnológicos de utilização dos docentes. Nesse sentido, percebeu-se que há utilização desses aparatos por parte dos professores, porém, há limitações no que tange à falta de preparação profissional, condições limitadas do ambiente que não proporciona estrutura física adequada para inserção das tecnologias no ambiente pedagógico e custo benefício para equipar as salas com vídeo game.

Diante da pesquisa realizada, foi possível perceber que o aparelho de DVD, a televisão, o aparelho de som, computador e projetor são os recursos tecnológicos mais utilizados pelos professores. Por outro lado, em menor número de utilização foi citado o vídeo game que, considerando os estudos presentes na discussão do artigo, constitui valiosa ferramenta pedagógica para ser utilizada no processo educacional.

Destarte, ainda há muito para investigar tendo os recursos tecnológicos no ambiente educacional como objeto de estudo. Nessa investigação é notável que as novas tecnologias façam parte do cotidiano escolar, embora sua utilização seja limitada por conta da formação profissional e condições ambientais. Logo, é importante ressaltar que esse estudo limitou-se a identificar as ferramentas tecnológicas utilizadas por professores de educação física, sendo assim, é necessário que outros sejam realizados, a fim de identificar os motivos pelo qual são utilizados, bem como suas possibilidades e limitações.

 

REFERÊNCIAS

AMORIM, Nádia Ribeiro; SOUZA, Maria Alice Veiga Ferreira de; TERRA, Vilma Reis; LEITE, Sidnei, Quezada Meireles. Cineclube na escola: uma proposta sociocultural interdisciplinar para a promoção da alfabetização científica. Revista Eletrônica Debates em Educação Científica e Tecnológica, v. 02, n. 2, p. 111-121, 2012.

BARACHO, Ana Flávia de Oliveira; GRIPP, Fernando Joaquim; LIMA, Márcio Roberto de. Os exergames e a educação física escolar na cultura digital. Rev. Bras. Ciênc. Esporte, Florianópolis, v. 34, n. 01, p. 111-126, jan./mar. de 2012.

BIANCHI, Paula. Relato de experiência em mídia-educação (física) com professores da rede municipal de ensino de Florianópolis/SC. Pesquisa em educação física e mídia: contribuição do LaboMidia/UFSC. Florianópolis: Tribo da Ilha, 2010.

DINIZ, Irlla Karla dos Santos; RODRIGUES, Heitor de Andrade; DARIDO, Suraya Cristina. Os usos da mídia em aulas de educação física escolar: possibilidades e dificuldades. Movimento, Porto Alegre, v. 18, n. 03, p. 183-202, jul./set. de 2012.

KENSKI, Vani Moreira. Tecnologias e ensino presencial e a distância. 8. Ed. Campinas: Papirus, 2010. 

RODRIGUES JUNIOR, Emílio; SALES, José Roberto Lopes de. Os jogos eletrônicos no contexto pedagógico da educação física escolar. Conexões: revista da faculdade de educação física da UNICAMP, Campinas, v. 10, n.01, p. 70-82, jan./abr. 2012.

SENA, Dianne Cristina Souza de; As tecnologias da informação e da comunicação no ensino da educação física escolar. Hipertextus Revista Digital, n.06, ago. de 2011.

SILVA, Marco. Infoexclusão e analfabetismo digital: desafios para a educação na sociedade da informação e na cibercultura. FREITAS, Maria Teresa de Assunção (org.). Cibercultura e Formação de Professores. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.

VAGHETTI, César Augusto Otero; MUSTARO, Pollyana Notargiacomo; BOTELHO Silvia Silvio da Costa. Exergames no ciberespaço: uma possibilidade para educação física. Proceedings of SBGames, Salvador-BA, 2011.

WEBER, Aline; SANTOS, Edmea; CRUZ, Mara Monteiro da; Letramento e alfabetização na cibercultura: crianças e jovens em rede, desafios para educação. Leitura: teoria e Prática, Campinas, v.32, n.62, p. 59-73, jun. de 2014.

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Possui graduação em Educação Física pelo Centro Universitário da Cidade (2009), Graduação em Educação Física pela Universidade Estácio de Sá (2014), especialização em Educação Física escolar e Psicomotricidade pela Universidade Gama Filho(2011) e Mestrado em Humanidades, Cultura e Artes pela Unigranrio (2016). Atualmente é professor da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e da Universidade Anhanguera. 


 


   
           



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Segunda-feira, 21/08/2017

Confúcio e a ordem moral

Tags: artigo, secretário.

 

Governa por meio de decretos, disciplina por meio de castigos, e o povo usará subterfúgios e não terá consciência. Guia-o pela virtude e pela moral, e ele terá consciência e alcançará o bem.

                                                                 Analectos, II, 3

Desde o supremo governante até o homem mais humilde, a base fundamental é igual para todos: o aperfeiçoamento de si mesmo.

                                                                     O grande estudo, VI


As forças menores fluem por toda parte, como correntes de rios, ao passo que as grandes forças da Criação movem-se em silêncio, mas constantemente.

                                                                          A conduta da vida, XXIX

 


Confúcio (ca. 551-479 a.C.) pertence ao seleto grupo de personagens históricos de primeira linha, fundadores de projetos civilizatórios, que nunca exerceram poder político nem deixaram textos que tenham sido transmitidos às gerações seguintes. A gigantesca influência que exerceu sobre a posteridade, e que perdura até hoje, tem origem em ensinamentos transmitidos por um grupo de discípulos em textos breves, descontínuos, ricos em possibilidades de interpretação. Os historiadores divergem até mesmo sobre importantes aspectos factuais de sua vida. Mesmo assim, os chineses o
consideram o sábio nacional mais relevante e reconhecem nele “um mestre para dez mil gerações”.

Sabe-se que nasceu em uma época de grande turbulência, em que o império chinês estava fragmentado em numerosos estados que lutavam entre si. Crítico da ordem social vigente, estudou na capital e peregrinou durante doze anos, como mais um filósofo ambulante em busca de uma oportunidade para associar sua doutrina à ação política. Com 68 anos, retornou fracassado ao estado natal, sem conseguir disseminar sua mensagem. Refletiu sobre isso: “Não me aflijo porque os homens não me conhecem. Aflijo-me por não conhecer os homens.”


* * *

Confúcio não propôs instituições econômicas, legislações ou um regime político específico. Não anunciou uma revelação nem experimentou qualquer outra forma de vivência religiosa. Não falou de mistérios de outro mundo. Não foi um místico. Pregou um conhecimento que gira em torno da beleza, da ordem e da autenticidade, defendendo um ideal de perfeição moral que se obtém pela prática de virtudes humanas.

Para ele, o que está oculto e precisa ser desvelado é justamente o que perpassa tudo, o que não cessa de se expor, o que se desdobra da maneira mais ampla. É onipresente e invisível, pois não se esgota em nenhuma das suas manifestações.

Ao contrário da ciência ocidental, seu pensamento não pretende conhecer objetos e estabelecer uma incontroversa verdade sobre cada um deles. Ao destacar o fundo de imanência que torna tudo possível, busca encontrar os caminhos da harmonia.

Reconhece que a realidade se nos apresenta na forma de opostos, pois, quando nasce algo, o seu oposto simultaneamente se cria. Mas diz que o contraste é relativo. Nenhum dos lados pode vencer completamente, pois o momento da vitória é também o momento da mudança.

 As condições antagônicas se reconciliam pela sucessão, cada qual se transformando na outra. Não devemos nos prender a um dos polos e atribuir ao outro uma posição completamente negativa. Uma atitude inflexível induz a atitude oposta, perpetuando o confronto e dificultando o fluxo das mutações. Precisamos encontrar a posição correta, aquela que nos permite vivenciar os contrastes no tempo, o grande produtor de regulação.


* * *

Confúcio deu grande importância à recuperação dos saberes antigos, pois considerava petulante e fútil tentar criar o absolutamente novo, ignorando o processo histórico que nos moldou. Mas não foi um mero repetidor do passado: sabia que nada pode ser restaurado em sua forma anterior. Ao ser entendido e atualizado, o antigo se transforma dinamicamente, fazendo surgir uma filosofia que renova a tradição e, por isso, tem maior possibilidade de ser difundida.

Ao tentar recuperar os fundamentos da civilização chinesa, Confúcio trabalhou para revigorá-la. Seu tema central foi o homem em comunidade. Enquanto os animais são regulados pelos instintos, que lhes impõem comportamentos restritos e repetitivos, cada um de nós precisa tornar-se humano, escolhendo entre muitas possibilidades. Isso ocorre progressivamente, no interior de uma comunidade. Daí a necessidade de uma ordem, que, no entanto, não deve ser imposta por meio de violência, ameaças e castigos, que disseminam medo e hipocrisia. A ação eficaz exige mediações que inibam ou promovam aquilo que cada um traz dentro de si, em germe.

É de educação que se trata. De volta a Lu, seu estado natal, Confúcio fundou uma escola, que funcionou em sua própria casa, tendo em vista preparar jovens para carreiras de Estado, transmitindo-lhes os ritos, a escrita, o cálculo, o trato com cavalos, o manejo do arco e a música. O uso do arco mimetizava a vida: “Na prática do arco e flecha há algo semelhante ao princípio que existe na vida de um homem moral: quando o arqueiro não atinge o alvo, ele se vira e busca a causa do fracasso em si mesmo.” E a música era um componente essencial do processo educacional: “O espírito da
omunidade se determina pela música que escuta, e o espírito do indivíduo encontra nela os motivos que ordenam sua vida.”


* * *

Dedicou bastante esforço ao problema fundamental de como ensinar e aprender. Na base de tudo estava, a seu ver, uma vida ética, pois quem segue má conduta nunca terá acesso ao que é essencial. Critica um aluno: “Tem muita pressa.” Elogia outro: “Não comete duas vezes o mesmo erro.” Renega atalhos: “Não ensino quem não se empenha sinceramente em aprender.” E refere-se a um esforço sem fim: “Quem aprende, nem por isso penetra na verdade; quem penetra na verdade, nem por isso é capaz de perseverar nela; quem persevera, nem por isso está em condições de interpretá-la em cada circunstância particular.”

Valorizou os ritos e as convenções sociais, que não distinguia da moral, da política e do direito. O povo, dizia, não é guiado por ideias abstratas, mas por costumes, que formam uma espécie de “segunda natureza”. O homem precisa ser educado em um ambiente que estimule as virtudes coletivas. Quando um governo usa seguidamente as leis, algo vai mal, pois se o ambiente é bom, com um poder sem soberba, com respeito a todos no trato, o modelo virtuoso se multiplica naturalmente, tornando desnecessário o apelo à lei.

Observou, compilou e ordenou as regras da vida cotidiana, as cerimônias, as celebrações e as normas administrativas. Mas nunca foi dogmático: a forma só tem valor se estiver impregnada de autenticidade: “Uma posição eminente sem nobreza de caráter, culto sem veneração, práticas funerárias sem sincera dor são situações que não suporto.”

Nunca propôs ideias fixas e preconcebidas: “O homem nobre não adota uma atitude fechada, a favor ou contra, diante de nada no mundo. Mantém-se aberto. Suspende o juízo ao deparar com o que não compreende. Permanece dúctil. Caracteriza-se pela firmeza do caráter, não pela obstinação.” Por isso, também o ódio e a ira são lícitos: o bom sabe amar e odiar de modo justo.


* * *

A herança confuciana marcou profundamente a civilização chinesa. Nela, a obrigação moral é a base da ordem social e deve orientar as ações cada um. A escola, a família, o governo e as demais instituições têm como objetivo educar os homens para que sintam por si mesmos essa obrigação: a força moral de cada um é a base da organização social. A tradução de Ku Hung Ming, da qual partimos, destaca essa ideia.

Num momento em que a China adquire crescente presença internacional, torna-se cada vez mais importante conhecermos os fundamentos intelectuais de sua civilização.

 

César Benjamin

http://www.prefeitura.rio/web/sme/estrutura


   
           



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Segunda-feira, 07/08/2017

Uma certa ideia de Brasil

Tags: artigo, secretário.

 


César Benjamin
Para o livro Enciclopédia de Brasilidade, organizado por Carlos Lessa



“Os discursos de que não viu, são discursos.
Os discursos de quem viu, são profecias.”
Antônio Vieira, Sermão da Terceira Dominga do Advento, 1669




1. Muitos motivos se somaram, ao longo da nossa história, para dificultar a tarefa de decifrar, mesmo imperfeitamente, o enigma brasileiro. Já independentes, continuamos a ser um animal muito estranho no zoológico das nações: sociedade recente, produto da expansão européia, concebida desde o início para servir ao mercado mundial, organizada em torno de um escravismo prolongado e tardio, única monarquia em um continente republicano, assentada em uma extensa base territorial situada nos trópicos, com um povo em processo de formação, sem um passado profundo onde pudesse ancorar sua identidade. 

Que futuro estaria reservado para uma nação assim? 

Durante muito tempo, as tentativas feitas para compreender esse enigma e constituir uma teoria do Brasil foram, em larga medida, infrutíferas. Não sabíamos fazer outra coisa senão copiar saberes da Europa, onde predominavam os determinismos geográfico (“a civilização é uma conquista dos países frios, pois é a vitória das sociedades contra as dificuldades impostas pelo ambiente”) e racial (“a civilização expressa o potencial de alguns subgrupos humanos mais aptos”) que irremediavelmente nos condenavam. Enquanto o Brasil se olhou no espelho europeu só pôde construir uma imagem negativa e pessimista de si mesmo, ao constatar sua óbvia condição não-européia.

2. Houve muitos esforços meritórios para superar esse impasse. Porém, só na década de 1930, depois de mais de cem anos de vida independente, começamos a puxar consistentemente o fio da nossa própria meada. Devemos ao conservador Gilberto Freyre, em 1934, com Casa-grande & senzala, uma revolucionária releitura do Brasil, visto a partir do complexo do açúcar e à luz da moderna antropologia cultural, disciplina que então apenas engatinhava. Abandonando os enfoques da geografia e da raça, Freyre revirou tudo de ponta-cabeça, realizando um tremendo resgate do papel civilizatório de negros e índios dentro da formação social brasileira. Dos portugueses, elogiou a miscibilidade, a plasticidade e a mobilidade, características que os distinguiam dos colonizadores de origem anglo-saxã. 

A colonização do Brasil, ele diz, não foi obra do Estado ou das demais instituições formais, todas aqui muito fracas. Foi obra da família patriarcal, em torno da qual constituiuse um modo de vida completo e específico. O latifúndio monocultor e o regime escravista de produzir afastavam, separavam, machucavam, mas a família extensa, cheia de agregados, a poligamia num contexto de escassez de mulheres brancas e a presença de considerável escravaria doméstica constituíam espaços de intercâmbio, nos quais negros e negras, índios e índias – especialmente, negras e índias –, muito mais adaptados aos trópicos, colonizaram o colonizador, ensinando-o a viver aqui. Mulatos, cafusos e mamelucos se multiplicaram, criando fissuras na dualidade radical que opunha senhores e escravos. 

Nada escapa ao abrangente olhar investigativo do antropólogo: comidas, lendas, roupas, cores, odores, festas, canções, arquitetura, sexualidade, superstições, costumes, ferramentas e técnicas, palavras e expressões de linguagem. Cartas de bisavós saem de velhos baús. Escabrosos relatórios da Inquisição são expostos com fina ironia por esse bisbilhoteiro que estava interessado, antes de tudo, em desvelar a singularidade da experiência brasileira. Ela não se encontrava na política nem na economia, muito menos nos feitos dos grandes homens. Encontrava-se na cultura, obra coletiva de gerações anônimas. Uma cultura de síntese, que afrouxou e diluiu a tensão entre os códigos morais e o mundo-da-vida, tensão constitutiva das sociedades de tradição judaico-cristã. Nossa alegria, diz Freyre, a devemos a índios e negros nunca completamente moralizados pelo cristianismo do colonizador. Um cristianismo, aliás, que também precisou misturar-se.

3. Devemos a Sérgio Buarque, em 1936, com Raízes do Brasil, um instigante ensaio – “clássico de nascença”, nas palavras de Antônio Candido – que tentava compreender como uma sociedade rural, de raízes ibéricas, experimentaria o inevitável trânsito para a modernidade urbana e “americana” do século XX. Ao contrário do pernambucano Gilberto Freyre, o paulista Sérgio Buarque não sentia nostalgia pelo Brasil agrário que estava se desfazendo, mas tampouco acreditava na eficácia das vias autoritárias, em voga na década de 1930, que prometiam acelerar a modernização pelo alto. Observa o tempo secular da história. Considera a modernização um processo. Também busca a singularidade do processo brasileiro, mas com olhar sociológico: somos uma sociedade transplantada, mas nacional, com características próprias. A dimensão privada e afetiva da vida sempre se sobrepôs – para o bem e para o mal – à impessoalidade burocrática, não raro descambando para o passionalismo e a impulsividade típicos do homem cordial, num quadro geral de ausência de direitos formais. 

Nossa história, diz Sérgio Buarque, girou em torno do “complexo ibérico”. Mas o êxito da colonização portuguesa não decorreu de um empreendimento metódico e racional, não emanou de uma vontade construtora e enérgica; buscou a riqueza que custa ousadia, não a riqueza que custa trabalho. A ética da aventura prevaleceu sobre a ética do trabalho. É uma herança atrasada, em via de superação, mas foi a base da nacionalidade, constituiu as “raízes do Brasil”. Não se pode nem se deve, simplesmente, recusá-la e negá-la, mas sim transformá-la. 

“Precisamos ousar inaugurar, de forma inédita, o que nunca se fez nessas latitudes” – eis uma frase cheia de significados: devíamos encontrar o caminho para superar o nosso atraso e, ao mesmo tempo, afirmar a nossa identidade, potencializando as nossas virtudes. Teria de ser, necessariamente, um caminho cheio de especificidades, como são cheios de especificidades, quando autênticos, os caminhos de todos os povos. Tremendo desafio, numa sociedade, ele diz, em que a inteligência sempre foi um ornamento, um beletrismo ávido por importar as últimas modas, incapaz de produzir conhecimento e impulsionar qualquer mudança real. 

Mesmo assim, Sérgio Buarque é otimista. Anuncia que “a nossa revolução” está em marcha, com a dissolução do complexo ibérico de base rural e a emergência de um novo ator decisivo, as massas urbanas. Crescentemente numerosas, libertadas da tutela dos senhores locais, elas não mais seriam demandantes de favores, mas de direitos. No lugar da comunidade doméstica, patriarcal e privada, seríamos enfim levados a fundar a comunidade política, de modo a transformar, ao nosso modo, o homem cordial em cidadão.

4. Apenas seis anos depois, em seqüência vertiginosa, Caio Prado Jr. publica Formação do Brasil contemporâneo, a primeira grande síntese historiográfica brasileira em quase cem anos, se contarmos desde Varnhagen. Realiza nesse texto o definitivo desvendamento das nossas origens como uma empresa colonial, acompanhado da hipótese forte de que a história do Brasil tem um sentido profundo, o da transformação dessa empresa, que fomos, em uma nação, que seremos. 

Caio Prado percebe que a colonização do Brasil representou um problema novo, pois os padrões mais conhecidos de dominação ao longo da História humana – a pilhagem de riquezas acumuladas, a cobrança de tributos e o estabelecimento de comércio desigual – não se aplicavam nestas terras sem metais preciosos (no século XVI) e habitadas por tribos dispersas, que viviam no Neolítico. A solução do problema demandou mais de trinta anos. Organizou-se finalmente uma empresa territorial de grande dimensão, com administração portuguesa, capitais holandeses e venezianos, mão-de-obra indígena e africana, tecnologia desenvolvida em Chipre e matéria-prima dos Açores e da ilha da Madeira – a cana. Esses elementos foram articulados em uma holding multinacional movida por força de trabalho escrava, mas regida pelo cálculo econômico e pela busca do lucro. Tudo o que existia aqui – a paisagem, a fauna, a flora e as gentes – teve de ser decomposto e desfeito, depois recomposto e refeito, de outras maneiras, para que o empreendimento mercantil prosperasse. 

Na origem, diz Caio Prado, não fomos uma nação, nem propriamente uma sociedade; fomos uma empresa territorial voltada para fora e controlada de fora. A empresa-Brasil sempre deu certo: propiciou bons negócios e gerou altíssimo lucro. Nos séculos XVI e XVII foi excelente o negócio do açúcar, a primeira mercadoria de consumo de massas em escala planetária, em torno da qual se formou o moderno mercado mundial. Foi depois magnífico o negócio do ouro; graças a ele, a Inglaterra – que nunca teve minas de ouro – constituiu as enormes reservas que lhe permitiram criar, no século XIX, o primeiro padrão monetário mundial (o padrão libra-ouro), símbolo e suporte de sua hegemonia. A partir de 1840, até bem entrado o século XX, foi maravilhoso o negócio do café, estimulante de baixo custo e fácil distribuição, ofertado à classe trabalhadora da Europa e dos Estados Unidos que precisava ser disciplinada para o trabalho fabril. Além disso, permeando toda a nossa história, foi sempre estupendo o negócio do endividamento perpétuo dessa empresa-Brasil, induzido pelos seus controladores de fora. 

Porém, a existência multi-secular da gigantesca e diversificada empresa territorial criou paulatinamente os elementos constitutivos de uma nova nação: “Povoou-se um território semideserto; organizou-se nele uma vida humana que diverge tanto daquela que havia aqui, dos indígenas e suas nações, como também da dos portugueses que empreenderam a ocupação. Criou-se no plano das realizações humanas algo novo (...): uma população bem diferenciada e caracterizada, até etnicamente, habitando determinado território; uma estrutura material particular, constituída na base de elementos próprios; uma organização social definida por relações específicas; finalmente, uma consciência, mais precisamente uma certa ‘atitude’ mental coletiva particular. (...) Esse novo processo histórico se dilatou e se arrasta. Ainda não chegou ao seu termo.” 

Eis aí uma importante chave de leitura para compreendermos as tensões que experimentamos até hoje: elas refletem o choque entre o Brasil empresa-para-os-outros, que ainda somos, e o Brasil nação-para-si, que desejamos ser. Completar esse processo, “fazê-lo chegar ao seu termo” – ou, ainda na linguagem de Caio Prado, realizar a Revolução Brasileira – é fazer desabrochar a última grande nacionalidade do Ocidente moderno, uma nacionalidade tardia, cujos potenciais permanecem em grande medida incubados.

5. Devemos em seguida a Celso Furtado uma brilhante síntese da Formação econômica do Brasil, um texto que também falava de História para mostrar os desafios fundamentais da modernização brasileira no século XX. Como os demais, Furtado escreve um ensaio de interpretação, uma “história pensada”, a partir do ponto de vista de um economista com sólida formação humanista. Descarta a idéia de que o Brasil teria reproduzido tardiamente uma sociedade de tipo feudal. Descreve as características dos ciclos econômicos baseados na produção de bens primários e impulsionados pela demanda externa, e aponta as insuficiências e os desequilíbrios que deles decorrem. Olha as regiões, estuda os casos de decadência sem transformação. Mostra que em no ssa história, recorrentemente, a fonte de demanda autônoma foram as exportações de alimentos, matérias-primas e minérios; que o mercado interno se atrofiou, induzindo a um baixo efeito multiplicador da renda gerada; que houve permanente vazamento de riqueza, em grande escala, para o exterior. Permanecemos na periferia do sistema-mundo que nos deu à luz. Como poderíamos sair dessa posição? 

Ao longo de toda sua obra, Furtado diz que o subdesenvolvimento é um processo específico, que tende a reproduzir-se no tempo, e não uma etapa transitória, que conteria em si, mais ou menos naturalmente, as condições de sua superação. O fortalecimento do mercado interno, o desenvolvimento da indústria e a formação de um núcleo endógeno de criação e difusão de progresso técnico – necessários para a superação da nossa condição – não poderiam resultar de forças espontâneas. Exigiam uma intervenção consciente, voltada para produzir mutações. Tornou-se clássica a sua análise sobre a adoção pelo Brasil, de maneira inovadora e pragmática, de eficazes políticas anticíclicas em plena crise de 19291933, antes mesmo que essas políticas tivessem sido claramente modeladas pela moderna teoria econômica. Elas criaram uma situação nova, que lançou as bases do nosso processo de industrialização. Levá-lo às últimas conseqüências era o desafio a vencer. 

Furtado nunca dissociou conhecimento e valores, economia e sociedade: “O processo de reprodução das desigualdades sociais exerce uma influência decisiva sobre as formas de utilização do excedente. Portanto, a composição do excedente é em grande parte um reflexo do sistema de dominação social, o que significa que sem um conhecimento das estruturas de poder é impossível avançar no estudo do desenvolvimento das forças produtivas.” Poucos são os economistas atuais capazes de conduzir análises desse tipo.

6. Tributárias de diferentes influências – notadamente Franz Boas, Max Weber, Karl Marx e John M. Keynes, nessa ordem –, essas quatro obras seminais lançaram as bases da moderna ciência social brasileira e permitiram o início de uma fecunda reinterpretação do Brasil. Como pano de fundo estava em marcha o ciclo desenvolvimentista, com a força de processos estruturais (e estruturantes) que nos conduziam, acreditava-se, do passado (população rural, economia agrícola, território fragmentado) ao futuro (população urbana, economia industrial, território integrado). Sabendo falar sobre nós mesmos, com a nossa própria linguagem, tínhamos finalmente uma identidade em construção. Sabendo diferenciar passado e futuro, vivíamos agora em um tempo orientado, condição primeira para se constituir um projeto. Os impasses do Império escravista e a pasmaceira da República Velha haviam ficado para trás. 

Tivemos muitos outros intelectuais visionários e homens de ação. Entre eles, Darcy Ribeiro talvez tenha sido o maior profeta da civilização brasileira. Inverteu radicalmente os velhos argumentos europeus contra nós, afirmando as vantagens da mestiçagem tropical diante de uma pretensa pureza temperada e fria. Mostrou como, aos trancos e barrancos, conseguimos fazer um povo-novo a partir dos grupos humanos que o capitalismo mercantil encontrou neste território ou transplantou para cá – na origem, índios destribalizados, brancos deseuropeizados e negros desafricanizados, depois gente do mundo inteiro. Estudou as características fundamentais desse contingente humano filho da modernidade, o maior povo-novo do mundo moderno. Viu que ele é também um povo-nação, reconhecendo-se como tal, falando uma mesma língua, habitando um território bemdefinido e tendo criado o seu próprio Estado. Debruçado em ampla visão da aventura humana, falou de um povo que ainda está no começo de sua própria história, e cuja identidade – por sua gênese e sua trajetória – não pode basear-se em raça, religião, vocação imperial, xenofobias ou vontade de isolar-se. Um povo que tem na cultura a sua única razão de existir. 

A composição ficava quase completa: éramos um país miscigenado, sentimental e alegre, moderno, culturalmente antropofágico, aberto ao outro e ao novo, desejoso de desenvolver-se, cheio de oportunidades diante de si. O passado nos condenava, mas o futuro nos redimiria. A figura mítica de Macunaíma e a figura real de Garrincha – figuras fora dos padrões, que faziam tudo errado, para no fim dar tudo certo – nos divertiam e nos encorajavam.

7. Produzimos assim, entre as décadas de 1930 e 1960, contornos nítidos de uma certa idéia de Brasil. Não importa discutir se essa idéia estava cem por cento correta ou errada, do ponto de vista de uma pretensa ciência positiva, se era precisa em minúcias, se tudo podia explicar, pois a representação ideológica de uma sociedade sobre si mesma cumpre a função de sinalizar valores, despertar esperanças e mobilizar energias, e não de retratar fielmente “o que existe”. Em certo momento de sua história, depois de quatro séculos em um labirinto, o Brasil reconheceu-se assim e percebeu-se portador de potencialidades insuspeitadas. É impossível exagerar a importância desse passo. Justo por isso, é também impossível exagerar o devastador impacto de sua desconstrução, realizada em troca de nada. 

Ao contrário do que se pensa, nossa crise atual não é, simplesmente, uma crise econômica. Resulta, em primeiro lugar e antes de tudo, da progressiva perda da idéia de Brasil, substituída pelos chavões daquela mesma inteligência ornamental, inútil, farsesca, adepta da moda, a que Sérgio Buarque se referia. A moda hoje é globalização, e a única diferença é que os saberes – hélas! – não são mais importados da Europa, mas dos Estados Unidos. O efeito é o mesmo: como pano de fundo, negatividade e desqualificação do que somos e podemos vir a ser, compensadas agora com doses cavalares de marketing. 

O sofisticado debate sobre a nossa especificidade e os nossos caminhos foi deslegitimado. A mediocridade voltou a mover-se em cena com altivez espantosa, cada vez mais arrogante e orgulhosa de si. Ela não gosta de imaginação, qualidades, invenção de caminhos; gosta de rótulos, pede mesmice. Na década de 1990, pela boca das nossas maiores autoridades e de alguns dos nossos mais influentes intelectuais – sobretudo os economistas –, jogamos fora todo o esforço intelectual anterior e passamos a nos reconhecer como... um mercado emergente. Profunda mudança de ponto de vista. Até então, mesmo que fôssemos uma nação incompleta e muito imperfeita, ainda vivíamos num universo ideológico em que completá-la e aperfeiçoá-la, de uma forma ou de outra, eram as nossas referências comuns. Quando passamos a nos reconhecer apenas como mercado, tudo mudou. Mercado não é lugar de cidadania, solidariedade, soberania, identidade. É espaço de fluxos, dominado pela concorrência, onde sobrevivem os mais fortes, e ponto final.

8. O fato mais notável dos últimos 25 anos, na História do Brasil, é a radical alteração das categorias que organizam e delimitam o nosso imaginário. Recuemos um pouco. No início do século XX, sob influência do positivismo, o Brasil dizia buscar, antes de tudo, civilização e progresso, conceitos que hoje podem soar equivocados ou ingênuos, mas que estavam explicitamente ligados a um futuro humano: a idéia de que progressos materiais pudessem sustentar-se em um vasto retrocesso social ou moral era então inimaginável, pois os avanços nessas várias esferas eram concebidos como paralelos e complementares. Depois, como vimos, o Brasil passou a falar em modernização, formulada como uma resposta ao atraso e à pobreza; o esforço modernizador só era necessário e legítimo porque eliminaria essas mazelas. As pessoas, os grupos sociais e a comunidade nacional, com sua diversidade e complexidade, permaneciam sendo a referência fundamental de um debate que nunca se dissociava de fins e destinos. 

Estamos agora esmagados pelo discurso da competitividade. Nem mesmo no plano das intenções ele expressa alguma grandeza. O pensamento das elites dominantes comporta-se como se elas não mais devessem explicações a ninguém. A competitividade segue a mesma lógica da guerra – conquistar supremacia sobre o outro – e exige apenas um tipo de progresso, de natureza tecnológica. Um progresso dos meios, de alguns meios manejados por poucos, que nada diz sobre fins. Esse conceito vazio de conteúdos humanos e avesso a juízos sociais abrangentes foi alçado à posição de articulador do nosso discurso e legitimador do modelo de sociedade que se deseja implantar. Com o agravante de que, agora, predomina a acumulação financeira – volátil, esperta, sempre de olho no curto prazo, em grande medida fictícia, de natureza intrinsecamente especulativa, com enorme potencial destrutivo. 

O grande capital – pois ele é que é “competitivo” – apresenta-se como portador de uma racionalidade que seria generalizável, sem mediações, para a sociedade como um todo. Inversamente, todas as outras lógicas – a dos pobres, a dos agentes econômicos não capitalistas ou simplesmente não competitivos, a da cidadania, a da soberania, a da cultura, a dos interesses nacionais de longo prazo – são consideradas irracionais ou desimportantes. Devem ser denunciadas, humilhadas e, progressivamente, silenciadas. Não articulam linguagens, mas ruídos; não expressam direitos, mas custos; não apontam para outras maneiras de organizar a sociedade, mas para a desordem e o caos na economia, acenados pelos poderosos como permanente ameaça.

9. Além de vasta cultura e honradez intelectual, Gilberto, Sérgio, Caio, Celso, Darcy e tantos outros, mesmo alinhando-se a correntes teóricas e políticas muito diferentes, mesmo propondo interpretações diversas, tinham uma coisa fundamental em comum: gostavam do Brasil. Desejavam do fundo da alma que o país desse certo e a isso dedicaram suas vidas e seus melhores esforços. Tal sentimento transparece em cada linha que escreveram, em cada gesto que fizeram, em cada palavra que disseram. Havia generosidade neles. Eis aí outra mudança importante: evidentemente, manifestamente, cinicamente, quase explicitamente, os formuladores e divulgadores do novo discurso hegemônico não gostam do Brasil. Gostam de business. O que estamos ouvindo deles, todo o tempo, é que o Brasil, como sociedade, nação e projeto, não tem sentido nenhum. Atrapalha. A esperança-Brasil deu lugar ao risco-Brasil. 

Conferindo aos mais ricos riqueza cada vez maior, associada a padrões culturais e de consumo cada vez mais distantes da realidade local, e condenando a maioria a um padrão de vida em declínio, essa opção alimenta forças centrífugas que apontam para o rompimento dos vínculos históricos e socioculturais que até aqui mantiveram, em algum nível, juntos os cidadãos. Os grupos mais bem-posicionados para participar do mercado mundial ficam cada vez mais tentados a desfazer quaisquer laços de solidariedade nacional, desligando completamente seu padrão de vida, seus valores, a forma de denominar e investir sua riqueza – e, portanto, o seu próprio destino – dos padrões, valores e destino do país como um todo. 

Os fatos do cotidiano mostram como se debilitam rapidamente, entre nós, as bases de uma sociabilidade civilizada: um regime comum de valores, caminhos de mobilidade social ascendente, a idéia de um futuro em construção. As conseqüências disso, no longo prazo, são imprevisíveis. Os segmentos que têm pressa de ser modernos a todo preço pedem a criação de instituições blindadas e de áreas de circulação restringida, onde a competitividade, a lucratividade, a velocidade e o pragmatismo, bem como o estilo de vida a eles associado, possam ostentar-se sem empecilhos. Mas essas instituições e áreas permanecem imersas em um território físico e social muito maior, que contém população diferenciada, necessidades várias, comportamentos múltiplos, problemas outros. É uma ilusão achar que elas possam desatar os laços que as ligam ao contexto em que estão.

10. Darcy Ribeiro mostrou como o primeiro passo no processo de submissão e destruição dos indivíduos indígenas era a transformação do índio específico – o gavião, o urubukaapor, o xavante, o bororo, portador de uma história, integrante de uma comunidade, habitante de um espaço cheio de significados – naquilo que chamou de “índio genérico”, um sem-lugar, cuja indianidade, inscrita no seu corpo mas não mais na sua cultura, passava a ser um signo negativo no mundo dos brancos, no qual ele se inseria sempre por baixo. Acredito que muito da angústia de Darcy, no fim da vida, tenha vindo da percepção de que o povo brasileiro, como um todo, corria o risco de transformar-se em um povo genérico e inespecífico, ao qual também restaria eternizar uma inserção por baixo e tendencialmente declinante no sistema internacional. 

É este o nosso maior desafio, que pode ser visto de vários ângulos. Para retomar a terminologia de Caio Prado, estamos assistindo à vitória – temporária, porque a-histórica – da perspectiva do Brasil empresa-para-os-outros sobre o Brasil nação-para-si. Impõe-se, pois, uma dura luta política e cultural. As alternativas são radicais para ambos os lados. Há uma bifurcação no caminho. O país terá de decidir: ou aceita tornar-se apenas um espaço de fluxos do capital internacional, o que significa ser expulso da História, ou retoma seu processo de construção em novas bases. 

Se quisermos a segunda opção, temos de reencontrar uma idéia de Brasil. Por trás do poderio dos Estados Unidos há uma idéia de Estados Unidos. Por trás da reconstrução do Japão há uma idéia de Japão. Por trás da União Européia há uma idéia de Europa. Por trás da ascensão da China há uma idéia de China. Se não reconstruirmos uma idéia de Brasil, nenhum passo consistente poderemos dar. (O título deste artigo, aliás, é retirado das Memórias do general De Gaulle. Oficial do estado-maior do Exército francês, recusou-se a render-se aos alemães, que naquela fase da guerra pareciam invencíveis, e protagonizou uma fuga espetacular para a Inglaterra, de onde liderou a Resistência. Segundo escreveu, fez isso, afrontando naquele momento todas as probabilidades de êxito, porque tinha na cabeça “uma certa idéia de França”, e a vida sob ocupação não cabia nela.)

11. O esforço dos pensadores que nos antecederam deixou pontos de partida muito valiosos. Mas devemos reconhecer que eles nos falaram de um país que, pelo menos em parte, deixou de existir. O Brasil de Gilberto Freyre girava em torno da família extensa da casa-grande, um espaço integrador dentro da monumental desigualdade; o de Sérgio Buarque apenas iniciava a aventura de uma urbanização que prometia associar-se a modernidade e cidadania; o de Caio Prado mantinha a perspectiva da libertação nacional e do socialismo; o de Celso Furtado era uma economia dinâmica, que experimentava uma acelerada modernização industrial; o de Darcy Ribeiro – cujos ídolos, como sempre dizia, eram Anísio Teixeira e Cândido Rondon – ampliava a escola pública de boa qualidade e recusava o genocídio de suas populações mais fragilizadas. 

Os elementos centrais com que todos eles trabalharam foram profundamente alterados nas últimas décadas. A economia mais dinâmica do mundo, que dobrou seu produto cinco vezes seguidas em cinqüenta anos, caminha para experimentar a terceira década rastejante. Todos os mecanismos que garantiram mobilidade social na maior parte do século XX foram impiedosamente desmontados, a começar da escola pública. A urbanização acelerada concentrou multidões desenraizadas, enquanto a desorganização do mercado de trabalho multiplicava excluídos. Tornado refém do sistema financeiro, o Estado nacional deixou de cumprir funções estruturantes essenciais. A fronteira agrícola foi fechada, estabelecendo-se nas áreas de ocupação recente uma estrutura fundiária ainda mais concentrada que a das áreas de ocupação secular. Nesta sociedade urbanizada e estagnada, os meios eletrônicos de comunicação de massas tornaram-se, de longe, a principal instituição difusora de desejos, comportamentos e valores, inoculando diariamente, maciçamente, irresponsavelmente uma necessidade de consumo desagregadora, pois inacessível. “Nunca foi tão grande a distância entre o que somos e o que poderíamos ser”, disse recentemente Celso Furtado, antes de nos deixar. 

Todos esses processos estão aí, a nos desafiar, exigindo de nós um esforço de análise talvez mais árduo do que aquele realizado pelas gerações dos nossos mestres. Ainda não sabemos bem até que ponto tais processos alteraram definitivamente as condições sociológicas da nossa existência, e em que direção. Não temos uma teoria do Brasil contemporâneo. Estamos em vôo cego, imersos em uma crise de destino, a maior da nossa existência. A História está nos olhando nos olhos, perguntando: “Afinal, o que vocês são? O que querem ser? Tem sentido existir Brasil? Qual Brasil?” 

Temos hesitado em enfrentar questões tão difíceis, tão radicais. Preferimos brincar de macroeconomia. Mas a disjunção está posta: ou o povo brasileiro, movido por uma idéia de si mesmo, assume pela primeira vez o comando de sua nação, para resgatá-la, reinventá-la e desenvolvê-la, ou assistiremos neste século ao desfazimento do Brasil. Se ocorrer, este último desfecho representará um duríssimo golpe nas melhores promessas da modernidade ocidental e será um retrocesso no processo civilizatório de toda a humanidade. A invenção do futuro se tornará muito mais penosa, para todos. 

 

“Os discursos de quem viu”, dizia Vieira, “são profecias”.




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