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Sexta-feira, 20/05/2016

Os Desafios do Professor do Século XXI

Tags: entrevista, lab, education.

 

 

Entrevista com Professora Neuza Pedro sobre o Professor do Século XXI e sobre o uso do modelo Lab. Excelente relexão para fazermos diferente e melhor.

 

RIOEDUCA -Quem é o professor do século XXI e quais os seus desafios?

Neuza  Pedro - Diria que é um professor sobretudo aberto à mudança, confiante em si, no seu saber curricular e pedagógico mas disponível para mudar para fazer diferente. É um professor cientificamente capacitado, mas com sentido crítico e em constante atualização profissional. É um professor pedagogicamente formado mas flexivel o suficiente para saber acolher o que a cada dia se descobre de novo acerca da aprendizagem e do processo cognitivo no ser humano. É um professor que valoriza o saber e que por tal valoriza todos os meios de acesso ao saber, sejam eles analógicos, tecnológicos, … que o futuro nos trouxer. É ainda um professor positivo e empoderecedor, que acredita nas capacidades dos seus alunos e que atua sempre para que estes consigam ir além de si mesmos.  Que desafios enfrentam? São inumeros; como sempre foram, aliás. Não acho a atualidade das escolas seja particularmente mais dificil do que qualquer uma das décadas que nos antecederam. Os desafios são outros, nem mais, nem piores. Mas são realmente numerosos e por isso vou eleger 2: a qualificação docente e direito a uma regular atualização profissional, e o combate à burocratização do sistema (educativo).

 

RIOEDUCA - O professor ainda pode ser considerado o “core” da inovação em educação?

Neuza  Pedro - Sem dúvida. Não há ideia inovadora em educação, por melhor e mais inovadora que seja, que se revele “à prova de professor”. Muito dificilmente se consegue inovar se essa inovação não for incorporada numa mudança da prática docente, naquilo que estrutura o dia-a-dia em sala de aula. Contudo, há que notar que isto não significa que a mudança nas práticas dos professores, por si só garante inovação. A inovação em educação tem que ser entendida como uma processo de modernização sistémica, ou seja, que envolve todos os agentes e todas as engrenagens do sistema educativo. Um professor sozinho não faz inovação, no máximo faz alguma agitação; perturba um pouco as rotinas, suscita curiosidades, alimenta algumas invejas… mas ainda lhe falta alguns passos para conseguir estabelecer uma inovação. Dois professores? Assim sim, começa a mudar tudo. Um grupo de professores, com o diretor certo e mais o apoio de 2 ou 3 pais? Ai sim; ruma-se à inovação.

 

 

RIOEDUCA - Diversos modelos são apresentados com base na integração de tecnologias. Essa é ainda uma tendência da “Escola do Futuro” no mundo ?

Neuza Pedro - Há quem defenda que a escola se deve manter à margem da sociedade, que se deve preservar do turbilhão de problemas políticos, sociais e económicos que desvirtuam a paz necessária para a aprendizagem. Recordo o que Alain, notável filósofo francês, nos indicava “A escola é um lugar admirável. Gosto que os ruídos exteriores não entrem nela.” Compreendo a perspetiva mas, em humildade, permita-me discordar em absoluto. A ideia de muros que separam a escola da realidade social e do mercado de trabalho assusta-me. Assim, entendo que enquanto as tecnologias estiverem integradas nas práticas diárias dos cidadãos tanto em sua atividade laboral, como em situação sociais e de lazer, então elas têm necessariamente que ser integradas na escola. A escola e a vida devem ser uma e a mesma coisa. Não consigo imaginar uma escola de futuro, ou seja, para o futuro e com futuro onde a tecnologia não tenha presença, ou que até lá possa estar desde que seja desligada… Parece-me uma perda de oportunidades imensa, sobretudo nos contextos socioeconomicos mais deprimidos onde o acesso ao conhecimento ainda é tão restrito! Há já alguns anos, na União europeia definiu um quadro de referência para todos os países memberos onde sinaliza como fundamental o domínio de 8 competências-chave: a comunicação na língua materna e em línguas estrangeiras, a competência matemática e competências básicas em ciências e tecnologia, a competência digital, o aprender a aprender, as competências sociais e cívicas, a iniciativa e espírito empresarial, e finalmente a sensibilidade e expressão culturais. Gosto sempre de referir que as tecnologias aparecem por duas vezes: as competências básicas em tecnologia e as competências digitais. Lamento ter que indicar que nem umas nem outras estão a ser adequadamente consideradas nos curriculos, nem tranversalmente trabalhadas na generalidade das escolas de hoje. Por isso diria que se deverá ser uma tendência? Absolutamente que sim. Mas que se é hoje realmente uma tendência? Ainda não...

 

 

RIOEDUCA - Qual é a proposta do Future Teacher Education Lab ? Ela pode ser replicada? 

Neuza Pedro - A proposta é simples, complexamente simples e portanto acho que é totalmente replicável. Ao criarmos no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa o FTE-lab tivemos 2 ideias de base. A primeira. Em muitos países tem-se assistido a programas nacionais ou iniciativas locais de apetrechamento tecnológico das escolas do ensino básico e secundário, sobretudo na última década. Logo as escolas têm vindo a ter cada vez mais acesso a computadores, tablets, internet, etc.. De igual modo, os alunos têm cada vez cedo acesso a celulares com serviço de internet bastante rápida. Contudo, os professores e educadores, tanto aqueles que se encontram nas escolas como os recém-formados, não revelam a bagagem necessária para saber tirar partido pedagógico dessas tecnologias. E um dos principais motivos para essa limitação na formação dos professores é a falta de formação que os professores universitários têm na utilização pedagógica das tecnologias. Logo entendemos prioritário investir na qualificação técnico-pedagógica dos professores do ensino superior. A segunda ideia ligava-se ao facto de percebermos que se queremos vir a ter ‘salas de aula do futuro’, ou seja, inovadoras e potencializadora de abordagens pedagógicas ativas, precisamos ter professores que saibam atuar nelas, ou seja, precisamos preparar professores que estejam orientados para o futuro. Logo há necessidade de modernizar a própria formação inicial de professores, educadores, pedagogos, etc. Todos os profissionais tendem a repetir as práticas a que foram expostos; assim, se se pretende professores inovadores, as universidades têm que criar espaços onde a inovação em sala de aula seja vivenciada pelos futuros profissionais que aí se formam. Foi, para responder a estas duas ideias- mas que sinalizam na verdade um único problema: a falta de inovação e de modernização tecnológica das universidades- que o FTE-Lab foi criado. Optámos por chamar-lhe laboratório porque muitas vezes estamos realmente a fazer experiências, ou seja, não sabemos bem em que é que vai resultar… Ele organiza-se numa sala equipada com as mais modernas tecnologias digitais (paineis interactivos, impressoras 3D, tablets, robots, et.), com um layout adaptável e mobiliário flexível, de modo a permitir a exploração de novos cenários de ensino-aprendizagem com tecnologias digitais na formação inicial de professores; e de desenvolver workshops regulares sobre utilização educativa das tecnologias e ambientes online no ensino superior. O espaço foi criado em 2015 e com um orçamento bastante baixo: zero euros. Tinhamos muita vontade mas nenhuma fonte de financiamento. Resolvemos contactar diversos parceiros comerciais que haviamos conhecido no âmbito do Projeto ITEC, que acabou por promover a criação da Future Classroom da European Schoolnet, atualmente existente em Bruxelas. E pedimos aos parceiros que nos dissessem o que poderiamos oferecer-lhes de modo a que eles quisessem patrocinar a constituição desta sala no Instituto de Educação. Foi estabelecendo protocolos de parceria com essas empresas que conseguimos que estes disponibilizassem os equipamentos que precisávamos. A maioria dos equipamentos não nos foi oferecido mas sim ‘alocado ao espaço por tempo indefinido’… Nesses protocolos assumimos o compromisso de desenvolver para as empresas vários serviços, como seja, a criação de ‘videos ‘, documentação de ‘boas-práticas’ de utilização dos seus produtos, apoio ao desenvolvimento de estudos, testagem de soluções educativas em desenvolvimento, etc. Claro que acabou por haver alguma verba que teve ser ser investida no espaço por parte do Instituto na aquisição de algum mobiliário e obviamente houveram muitas horas de trabalho investidas por parte dos professores e investigadores envolvidos no projeto mas com o esforço e a boa-vontade de todos os envolvidos, o espaço foi criado com base num modelo muito em conta e encontra-se a funcionar em pleno. Temos imensos pedidos de visitas por parte de outras universidades nacionais e internacionais, de professores, de associações, empresas, e procuramos sempre ajustar o calendário para conseguir receber todos os interessados em vir conhecer o espaço e o que nele fazemos. Para nós é uma honra, receber pessoas interessadas no nosso trabalho.

 


Neuza Pedro, Professora no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Doutorada em Educação na especialidade TIC na Educação com Mestrado em Psicologia da Educação. Possui vários cursos de pós-graduação na área de Online teaching, tanto pela Universidade de Adger-Noruega como pela Universidade de Wisconsin-Stout nos Estados Unidos. Assume atualmente a coordenação do Mestrado em Educação e Tecnologias digitais e é, desde 2010, coordenadora do Laboratório de e-Learning da Universidade de Lisboa. Participou em vários estudos e projetos tanto nacionais como internacionais ligados à integração educativa das tecnologias de entre os quais se destaca: Project teL@FTE-Lab (Technology enhanced learning at Future Teacher Education), ITEC Project, Future Classroom Lab, Estudo Intel Teach Advanced Online, LEARN- Math, Technology & society, DALEST, WEBLABS.

 

 

 

 

 

 

                               

 

 


   
           



   
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