A A A C
email

Segunda-feira, 23/10/2017

Entre Jovens e a Roda de Conversa

Tags: entre jovens.

 

Entre Jovens – a sofisticada simplicidade de um projeto educacional e os efeitos das Rodas de Conversa


Certas palavras não podem ser ditas
em qualquer lugar e hora qualquer. Estritamente reservadas para companheiros de confiança,
devem ser sacralmente pronunciadas em tom muito especial/ lá onde a polícia dos adultos
não adivinha nem alcança. Entretanto são palavras simples...
E tudo é proibido. Então, falamos.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Boitempo'


Saber aprender é ciência que não se esgota. Nessa afirmação, com base nas diversas teorias da Educação, encontramos a premissa mais apropriada para a descrição de uma estratégia de aprendizado que reconfigura a prática de rever conteúdos, reinventando ou adaptando as ações em si mesmas. Isso nos leva – em tempos de novas linguagens e inúmeros aparatos tecnológicos – à necessidade de refletir sobre a prática renovada das rodas de conversa, considerando o poder da oralidade entre adolescentes do nono ano. 

O projeto Entre Jovens, que conquistou espaço na rede de escolas de segundo segmento do município do Rio de Janeiro, tendo mobilizado estagiários e professores, desde 2009, ganha destaque pelos resultados alcançados em 2016, com 99% de aprovação – e também pelo despojamento de recursos e a simplicidade na atuação e na prática do reforço escolar. Do primeiro nome ‘Entre’ alinha-se uma ideia de meio, nas artes do equilibrismo entre criança e adulto, entre professor e aluno, entre estagiários e jovens. 

Na curva do significado podemos afirmar que estar entre jovens, com a tarefa de reforçar conteúdos de Língua Portuguesa e de Matemática, traçando pontes e horizontes para depois do ensino fundamental, não é tarefa pequena, exigindo maleabilidade e traquejo, não apenas como adaptação à realidade, mas também como instrumento de intervenção e mudança. 

Pensadores da Educação na contemporaneidade, como Antônio Nóvoa, reitor honorário da Universidade de Lisboa, sustentam que o que “define a aprendizagem não é saber muito, é compreender bem aquilo que se sabe”, na premissa de que é preciso desenvolver entre os alunos “a capacidade de estudar, a de procurar, de pesquisar, de selecionar, de comunicar”, no propósito de (em meio a uma sociedade em rede) transformar informação em conhecimento com uma atitude permanente de pesquisa (Disponível em: http://www.cartaeducacao.com.br/entrevistas/antonio-novoa-aprendizagem-nao-e-saber-muito/.). 

De outra feita, percebemos que saber aprender e saber pensar, máximas de uma escola cidadã, presentes no pensamento do educador Paulo Freire surgem renovadas no século XXI, no esteio de uma sociedade marcada pelas redes de informação, significativamente rizomáticas, considerando o desafio de dar significado a todo o conteúdo, ou seja, consolidar o saber à luz de um por quê. 

O Entre Jovens abarca a camada de maior faixa etária do segundo segmento; configurado como projeto, destina-se a reforçar os conteúdos de Língua Portuguesa e de Matemática, oferecendo aos alunos uma prática de reforço, além de um diferencial para os que desejam enfrentar a seletividade de alguns concursos do ensino médio. Sua difusão em algumas das escolas com o nono ano, entre as onze coordenadorias de ensino da SME, tornou-se possível graças à parceria com Instituto Unibanco, de cunho socioeducacional uma forma de viabilizar propostas voltadas para a educação, associando a iniciativa privada ao conjunto de ações do universo público. O que se mostra relevante à análise neste momento é o princípio da junção elementar da equipe de estagiários, orientados de modo mais imediato pelos professores, ao traço da oralidade, marcada pela roda de conversa, mediada pelo estagiário de Pedagogia. 

Como se sabe a roda de conversa é uma prática de discurso oral, assentada como recurso pedagógico que estimula a linguagem e a assimilação da aprendizagem da leitura. Muito comum nas rotinas do primeiro segmento, a roda não é vista com a mesma constância entre os adolescentes do segundo segmento.

A capacidade de pensar do homem está biologicamente relacionada com sua
 aptidão para falar, para estabelecer comunicação através do discurso oral, em
 qualquer dialeto que seu grupo linguístico tenha escolhido para seu uso, isto
 é, para o fazer compartir entre os seus membros. [...] Do ponto de vista da
 evolução exige-nos reconhecer que a linguagem oral é fundamental em
 nossa espécie, enquanto ler e escrever têm todo o jeito de um acidente
 recente (HAVELOCK, 1996, p. 49-55).

 

Embora o segundo segmento seja reconhecido pela ebulição dos hormônios e a rebeldia própria dos adolescentes, o que se percebe é que a roda estimula uma oralidade marcada pelos signos da conversa. O exercício de falar que surge atado à experiência de ouvir ou de se fazer ouvir. 

Cléo Busatto afirma que o letramento também se faz através da oralidade, nesse caso, “quando lemos um livro em voz alta, estamos praticando a fala estética” (2010, p.7). No que se refere ao cenário dos adolescentes, observamos a existência de mais ruído do que comunicação, nesse caso, unida à rotina da ação pedagógica de exprimir o que se sente, no esteio de textos e dinâmicas que provocam reflexão, a oralidade emerge como espaço de negociação e maleabilidade, oportunidade para pensar a própria escola, no conjunto das práticas que caracterizam o segmento do sexto ao nono ano de escolaridade. Vale, portanto, perguntar: Por que conversar? O que seria, de fato, uma conversa? Com + versar. Transformações do corpo, sexualidade, padrões de beleza, conhecer a si mesmo. Uma espécie de adaptação à filosofia, no sentido menos estoico e mais libertador, sem pré-conceitos. A experiência advinda de reuniões com estagiários e itinerantes apontam para os resultados obtidos nas falas dos alunos. Espaço em que emergem questões relativas ao convívio em sala de aula, muitas vezes até no que diz respeito ao trato entre os sujeitos das unidades escolares. 

Paula Sibilia (2012) chama a nossa atenção para os processos que levaram a uma grande transformação dos modos de expressão, das variadas formas de comunicação e dos campos de construção de si mesmo, considerando “as relações com os outros e a formulação do mundo”, entre os “complexos desdobramentos que ainda estão por ser cartografados”, no curso do que chamamos “civilização da imagem” (2012, p.63). 

Faz-se importante ressaltar, ao longo desse entendimento maior, que a roda de conversa, as oficinas de Língua Portuguesa e de Matemática são coisas que acontecem com a orientação de professores itinerantes e estagiários, mas também alicerçadas por um material pedagógico rico de possibilidades. Entre eles, o Megassaudável, de autoria da Multirio, espécie de diário de bordo da nave adolescência. Com eles, a navegação vai além da Internet (ou refletindo sobre ela), criando redes que cruzam dados e informações de grandes eixos temáticos: espelho X imagem (aparência e autoestima); autonomia e conflito de gerações (como lidar com os dramas da vida adulta); amigos, amizade e convivência (ser aceito pela turma, boas e más companhias); entre outros assuntos que implicam cuidar de si mesmo e viabilizar projetos e planos para o futuro (esse período já quase esquecido em matéria de discurso). 

Na cultura popular ouvimos regularmente que a adolescência é a fase difícil, que os adolescentes são problemáticos. Biologicamente falando, esta é uma fase delicada – deixar de ser criança para se tornar um adulto – isso ocorre ao mesmo tempo em que as cobranças sociais surgem. Período em que o corpo sofre uma série de transformações, fazendo com que as mudanças sejam físicas e emocionais, em um contexto onde nem sempre há suporte e informações que os ajudem a passar por essa fase. 

Atualmente, o Projeto atende a 55 escolas, contabilizando onze Coordenadorias de Educação, 165 estagiários, 19 professores supervisores e itinerantes além de um aparato de ações nas gerências de educação, a fim de valorizar e imprimir significado a um grupo de alunos, na ponta da rede, fundamentalmente na saída dela, com a responsabilidade de levar consigo a experiência acumulada em toda essa formação.

 

Referências

BUSATTO, Cléo. Práticas de Oralidade na sala de aula. São Paulo: Cortez, 2010.
DEMO, Pedro. Saber pensar. São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire, 2005.
HAVELOCK, Eric. A revolução da escrita na Grécia e suas consequências culturais. São Paulo: Unesp; Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
NÓVOA, Antônio. Reportagem sobre aprendizagem. (Disponível em: http://www.cartaeducacao.com.br/entrevistas/antonio-novoa-aprendizagem-nao-e-saber-muito/.). Acesso em: 29 agosto/2017.
SIBILIA, Paula. Redes ou Paredes. A escola em tempos de dispersão. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.

__________________________________________________________________

 

Profª Márcia Elisa Rendeiro
PI de História na SME.
Graduação em História pela UGF.
Especialista em História do Brasil pela UCM.
Mestrado e Doutorado em Memória Social na UNIRIO.

 


 


   
           



   
Comentário enviado com sucesso, aguardando moderação.














Sua indicação foi enviada com sucesso!









Saiba mais:

entre jovens (1)

Comentários
Projeto maravilhoso de muita significação tanto para nossos alunos quanto para os professores envolvidos, tenho certeza que a aprendizagem é mutua.

Postado por tania lucia machado dos santos em 18/10/2017 09:06