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Segunda-feira, 21/08/2017

Confúcio e a ordem moral

Tags: artigo, secretário.

 

Governa por meio de decretos, disciplina por meio de castigos, e o povo usará subterfúgios e não terá consciência. Guia-o pela virtude e pela moral, e ele terá consciência e alcançará o bem.

                                                                 Analectos, II, 3

Desde o supremo governante até o homem mais humilde, a base fundamental é igual para todos: o aperfeiçoamento de si mesmo.

                                                                     O grande estudo, VI


As forças menores fluem por toda parte, como correntes de rios, ao passo que as grandes forças da Criação movem-se em silêncio, mas constantemente.

                                                                          A conduta da vida, XXIX

 


Confúcio (ca. 551-479 a.C.) pertence ao seleto grupo de personagens históricos de primeira linha, fundadores de projetos civilizatórios, que nunca exerceram poder político nem deixaram textos que tenham sido transmitidos às gerações seguintes. A gigantesca influência que exerceu sobre a posteridade, e que perdura até hoje, tem origem em ensinamentos transmitidos por um grupo de discípulos em textos breves, descontínuos, ricos em possibilidades de interpretação. Os historiadores divergem até mesmo sobre importantes aspectos factuais de sua vida. Mesmo assim, os chineses o
consideram o sábio nacional mais relevante e reconhecem nele “um mestre para dez mil gerações”.

Sabe-se que nasceu em uma época de grande turbulência, em que o império chinês estava fragmentado em numerosos estados que lutavam entre si. Crítico da ordem social vigente, estudou na capital e peregrinou durante doze anos, como mais um filósofo ambulante em busca de uma oportunidade para associar sua doutrina à ação política. Com 68 anos, retornou fracassado ao estado natal, sem conseguir disseminar sua mensagem. Refletiu sobre isso: “Não me aflijo porque os homens não me conhecem. Aflijo-me por não conhecer os homens.”


* * *

Confúcio não propôs instituições econômicas, legislações ou um regime político específico. Não anunciou uma revelação nem experimentou qualquer outra forma de vivência religiosa. Não falou de mistérios de outro mundo. Não foi um místico. Pregou um conhecimento que gira em torno da beleza, da ordem e da autenticidade, defendendo um ideal de perfeição moral que se obtém pela prática de virtudes humanas.

Para ele, o que está oculto e precisa ser desvelado é justamente o que perpassa tudo, o que não cessa de se expor, o que se desdobra da maneira mais ampla. É onipresente e invisível, pois não se esgota em nenhuma das suas manifestações.

Ao contrário da ciência ocidental, seu pensamento não pretende conhecer objetos e estabelecer uma incontroversa verdade sobre cada um deles. Ao destacar o fundo de imanência que torna tudo possível, busca encontrar os caminhos da harmonia.

Reconhece que a realidade se nos apresenta na forma de opostos, pois, quando nasce algo, o seu oposto simultaneamente se cria. Mas diz que o contraste é relativo. Nenhum dos lados pode vencer completamente, pois o momento da vitória é também o momento da mudança.

 As condições antagônicas se reconciliam pela sucessão, cada qual se transformando na outra. Não devemos nos prender a um dos polos e atribuir ao outro uma posição completamente negativa. Uma atitude inflexível induz a atitude oposta, perpetuando o confronto e dificultando o fluxo das mutações. Precisamos encontrar a posição correta, aquela que nos permite vivenciar os contrastes no tempo, o grande produtor de regulação.


* * *

Confúcio deu grande importância à recuperação dos saberes antigos, pois considerava petulante e fútil tentar criar o absolutamente novo, ignorando o processo histórico que nos moldou. Mas não foi um mero repetidor do passado: sabia que nada pode ser restaurado em sua forma anterior. Ao ser entendido e atualizado, o antigo se transforma dinamicamente, fazendo surgir uma filosofia que renova a tradição e, por isso, tem maior possibilidade de ser difundida.

Ao tentar recuperar os fundamentos da civilização chinesa, Confúcio trabalhou para revigorá-la. Seu tema central foi o homem em comunidade. Enquanto os animais são regulados pelos instintos, que lhes impõem comportamentos restritos e repetitivos, cada um de nós precisa tornar-se humano, escolhendo entre muitas possibilidades. Isso ocorre progressivamente, no interior de uma comunidade. Daí a necessidade de uma ordem, que, no entanto, não deve ser imposta por meio de violência, ameaças e castigos, que disseminam medo e hipocrisia. A ação eficaz exige mediações que inibam ou promovam aquilo que cada um traz dentro de si, em germe.

É de educação que se trata. De volta a Lu, seu estado natal, Confúcio fundou uma escola, que funcionou em sua própria casa, tendo em vista preparar jovens para carreiras de Estado, transmitindo-lhes os ritos, a escrita, o cálculo, o trato com cavalos, o manejo do arco e a música. O uso do arco mimetizava a vida: “Na prática do arco e flecha há algo semelhante ao princípio que existe na vida de um homem moral: quando o arqueiro não atinge o alvo, ele se vira e busca a causa do fracasso em si mesmo.” E a música era um componente essencial do processo educacional: “O espírito da
omunidade se determina pela música que escuta, e o espírito do indivíduo encontra nela os motivos que ordenam sua vida.”


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Dedicou bastante esforço ao problema fundamental de como ensinar e aprender. Na base de tudo estava, a seu ver, uma vida ética, pois quem segue má conduta nunca terá acesso ao que é essencial. Critica um aluno: “Tem muita pressa.” Elogia outro: “Não comete duas vezes o mesmo erro.” Renega atalhos: “Não ensino quem não se empenha sinceramente em aprender.” E refere-se a um esforço sem fim: “Quem aprende, nem por isso penetra na verdade; quem penetra na verdade, nem por isso é capaz de perseverar nela; quem persevera, nem por isso está em condições de interpretá-la em cada circunstância particular.”

Valorizou os ritos e as convenções sociais, que não distinguia da moral, da política e do direito. O povo, dizia, não é guiado por ideias abstratas, mas por costumes, que formam uma espécie de “segunda natureza”. O homem precisa ser educado em um ambiente que estimule as virtudes coletivas. Quando um governo usa seguidamente as leis, algo vai mal, pois se o ambiente é bom, com um poder sem soberba, com respeito a todos no trato, o modelo virtuoso se multiplica naturalmente, tornando desnecessário o apelo à lei.

Observou, compilou e ordenou as regras da vida cotidiana, as cerimônias, as celebrações e as normas administrativas. Mas nunca foi dogmático: a forma só tem valor se estiver impregnada de autenticidade: “Uma posição eminente sem nobreza de caráter, culto sem veneração, práticas funerárias sem sincera dor são situações que não suporto.”

Nunca propôs ideias fixas e preconcebidas: “O homem nobre não adota uma atitude fechada, a favor ou contra, diante de nada no mundo. Mantém-se aberto. Suspende o juízo ao deparar com o que não compreende. Permanece dúctil. Caracteriza-se pela firmeza do caráter, não pela obstinação.” Por isso, também o ódio e a ira são lícitos: o bom sabe amar e odiar de modo justo.


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A herança confuciana marcou profundamente a civilização chinesa. Nela, a obrigação moral é a base da ordem social e deve orientar as ações cada um. A escola, a família, o governo e as demais instituições têm como objetivo educar os homens para que sintam por si mesmos essa obrigação: a força moral de cada um é a base da organização social. A tradução de Ku Hung Ming, da qual partimos, destaca essa ideia.

Num momento em que a China adquire crescente presença internacional, torna-se cada vez mais importante conhecermos os fundamentos intelectuais de sua civilização.

 

César Benjamin

http://www.prefeitura.rio/web/sme/estrutura


   
           



   
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